Refutando Christopher C. French

 

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Chris French é professor de psicologia em Goldsmiths, University of London, onde comanda a unidade de pesquisa sobre psicologia anomalística por ele fundada em 2000. French é um auto aclamado cético, membro do CSI e uma pessoa bem conhecida na mídia, sendo, inclusive, colunista do jornal inglês The Guardian. Ele não acredita na ontologia de psi e aposta que fenômenos parapsicológicos podem ser explicados pelas hipóteses usuais, tais como fraude, viés do experimentador, defeitos estatísticos, vazamento sensorial ou outros artefatos experimentais.

 

Seu foco de pesquisa recai sobre a psicologia que subjaz a crença no paranormal e nas experiências anômalas. Em Reflections of a (Relatively) Moderate Skeptic[1], ele esclarece que o objetivo principal da psicologia anomalística é tentar responder pelos tipos de experiências bizarras que pessoas frequentemente relatam e rotulam como paranormal.

 

French diz que sua postura inicial em relação aos fenômenos parapsicológicos foi de um crente, mas que depois de ter contato com a obra de Alcock se converteu ao extremo ceticismo (veja também na seção acima o rebate ao criticismo de James Alcock). Hoje ele acredita ser um “cético moderado”, porém, isso não é bem verdade, pois continua extremamente hostil a psi.  

 

Embora French reconheça que algumas áreas da parapsicologia têm produzido resultados positivos e que se mostram como um desafio real para os críticos e que esses resultados merecem séria consideração pela mais ampla comunidade científica, ele enfraquece a evidência positiva através de alguns mecanismos retóricos viciosos, como, por exemplo: a supressão de resultados positivos; a menção de meta-análises que nulificam o efeito psi, mas que carregam sérias suspeitas metodológicas (porém sequer mencionadas por ele) e; a reivindicação de que as pesquisas psi sob seu monitoramento nunca alcançam resultados positivos. Contudo, essas pesquisas com resultados alegadamente nulos raramente são divulgadas para escrutínio, ainda que por meio de publicação informal.

 

Conforme já citado em outro lugar, Irwin e Watt (2007) já mencionaram o uso de estratégias retóricas para vencer os debates sobre controvérsias científicas:  

 

Embora parapsicólogos lamentem esses dispositivos retóricos, é fato que as controvérsias científicas vem sendo travadas desse modo. Como afirma Feyerabend (1975), não é tanto a lógica do processo que determina o resultado de uma controvérsia científica, mas, no lugar dela, as habilidades retóricas dos defensores de cada lado.

 

Vejamos agora, exemplificadamente, algumas dessas estratégias articuladas por French.

 

Em Reflections, French fala que parapsicólogos têm adotado meta-análises como a “rota real para a respeitabilidade científica”. Embora ele concorde que as pesquisas meta-analíticas são uma poderosa ferramenta quando usadas apropriadamente, menciona o risco que elas podem representar quando manejadas de forma abusiva, o que concordamos. Então French cita duas meta-análises que concluíram a favor da hipótese nula, ou seja, pela inexistência do efeito psi no conjunto de estudos analisados, a saber: sobre estudos ganzfeld (Milton e Wiseman, 1999) e os de psicocinese (PK) usando RNGs como alvo (Holger Bösch e colegas, 2006).

 

Mas essas duas meta-análises apresentam sérios defeitos os quais, quando corrigidos, permitem serem revelados resultados estatisticamente significativos a favor de psi.

 

A razão para que a meta-análise de M./W. tenha falhado em confirmar um efeito parapsicológico é que estes autores utilizaram médias não ponderadas, ignorando o tamanho da amostra de cada estudo analisado. Dean Radin (2006) adverte que se somarmos o total de acertos e de tentativas nos 30 estudos avaliados por M./W. (o método correto de fazer meta-análise) encontraremos resultados estatisticamente significativos a favor de psi, com probabilidades contra o acaso em cerca de 20 para 1. Outros problemas atormentam essa pesquisa meta-analítica (para mais informações, veja a seção sobre telepatia).

 

HB et. al., por sua vez, desqualificaram o efeito PK, pois – segundo eles – o viés de publicação (reporte seletivo ou efeito filedrawer) estava inflando os resultados significativos encontrados na meta-análise. HB estimou a existência de 1.544 estudos negativos e não reportados. Porém, na revisão da análise de HB, levada a cabo por Radin e colegas e igualmente publicada no Psychological Bulletin, foi descoberto que HB havia equivocadamente assumido que o tamanho do efeito desses estudos era independente do tamanho da amostra (vide maiores detalhes na seção de psicocinese). Radin ainda faz mais duas importantes considerações sobre a análise de HB. Primeira, dentro do subconjunto de experimentos considerados por HB, ele excluiu 3 grandes estudos que reportaram resultados altamente significativos. Esses 3 experimentos contém também cerca de 210 vezes a quantidade de dados de todos os 377 estudos remanescentes combinados. Segunda, para checar a estimativa de reporte seletivo, Radin e colegas conduziram uma análise entre os pesquisadores que conduziram a maioria dos estudos com RNGs para estimar o número real de experimentos não reportados, sendo respondido que “1”, ou seja, 1 experimento não reportado por investigador, o que sugere que foram 59 estudos potencialmente não reportados (o mesmo número de investigadores), e não 1.544. Ainda que, na pior das hipóteses, todos aqueles 59 estudos tivessem resultados nulos, isso não afetaria o resultado geral. Nessa esteira, arremata Radin (2013), “a conclusão de Bösch de que o viés de publicação era a explicação mais fácil para a meta-análise é injustificada”.

 

São momentos assim que vemos French se utilizar do exercício da retórica para desacreditar a pesquisa parapsicológica. Observe-se: ao constatar que parapsicólogos manejam meta-análises como uma poderosa ferramenta para revelar o efeito psi (o que decerto tem contribuído para fortalecer a hipótese parapsicológica), in continenti “lança no ar” a possibilidade do uso abusivo dessa ferramenta ao passo que simultaneamente cita duas pesquisas meta-analíticas favoráveis à hipótese nula. Fica assim nas entrelinhas de seu argumento, porém de modo bastante claro, que as meta-análises favoráveis à psi podem eventualmente estar cometendo algum abuso metodológico. Contudo, à luz dos exemplos mencionados por ele próprio, o que vemos é o abuso de meta-análises para mascarar o efeito psi, e não o contrário!

 

Além do mais, convém salientar que as críticas lançadas às meta-análises de M./W. (1999) e HB (2006) são bem anteriores ao artigo de French (2010), mas ele em nenhum momento menciona em Reflections que tais pesquisas tiveram falhas apontadas, máxime no que diz respeito às falhas grosseiras contidas na pesquisa de M./W. O mesmo aconteceu quando French juntamente com Richard Wiseman e Stuart Ritchie publicaram em PLOSone uma replicação fracassada de um dos experimentos de premonição de Daryl Bem, a saber, o efeito da memória retroativa (vide a seção de “Antecipação anômala de eventos futuros e aleatórios”). Aqui French e outros ressaltam que o efeito premonitório não foi confirmado nos experimentos deles, porém deixaram de mencionar, à época, a existência de dois experimentos bem sucedidos e inseridos nos registros de um daqueles autores. A esse respeito, Bem[2] ponderou:

 

No prazo [de submissão do artigo deles], seis estudos que tentaram replicar o ‘efeito da memória retroativa’ estavam concluídos, incluindo as três replicações fracassadas e relatadas por Ritchie e colegas e duas outras replicações as quais reproduziram com êxito as minhas descobertas originais em níveis estatisticamente significativos. (Uma delas foi realizada na Itália usando palavras italianas como estímulos). Apesar desses dois estudos bem sucedidos estarem previamente inseridos no registro de Wiseman e seus resultados presumivelmente conhecidos por Ritchie e colegas, eles falharam em os mencionar no artigo deles.

 

Aliás, embasado na suposta falha de M./W. em replicar os resultados de Bem e Honorton quanto aos estudos ganzfeld, French sustenta que a falta de replicabilidade é um criticismo permanentemente atormentador na parapsicologia.

 

Na análise das críticas dos demais céticos já rebatemos exaustivamente a questão da (suposta) carência de replicação dos experimentos psi, razão pela qual não me aprofundarei mais aqui. Além disso, nas seções específicas sobre os variados tipos de fenômenos há o relato de muitas pesquisas e o resultado geral meta-analítico que confirma a reprodutibilidade experimental. Sobre esse ponto deixo para reflexão do leitor um trecho de The Critics Lament: When the Impossible Becomes Possible, de Dean Radin[3]:

 

Meta-análises de alguns experimentos psi, como a de Bem e Honorton (1994), proveem evidência altamente significativa para um efeito independentemente repetível. Aquela análise deveria ter resolvido a questão da repetibilidade de psi há muito tempo atrás. Mas os críticos discordam. Por que? Porque, para eles, o experimento repetível não é mais suficiente. Em vez disso, a baliza foi movida e agora estamos vendo preocupações relativas à repetibilidade da repetibilidade.

Enquanto alguns argumentam que níveis extremos de repetibilidade são necessários quando se trata de avaliar anomalias, insistir na meta-repetibilidade é um jogo totalmente novo. Para ganhar esse jogo, tudo o que os críticos precisam fazer é continuar realizando meta-análises até uma delas falhar e, em seguida, parar e anunciar que o efeito não é repetível.

 

Como mencionamos acima, French também reivindica que as pesquisas psi sob seu monitoramento nunca alcançaram resultados positivos. Sobre essa alegação, Radin novamente responde de modo categórico:

 

Finalmente, French escreve que, apesar de seus próprios esforços de pesquisa serem principalmente na área de psicologia anomalística, ele está feliz em supervisionar estudantes que desejam realizar estudos parapsicológicos, mas que eles nunca conseguem resultados positivos. Já li declarações semelhantes antes. Minha reação é: realmente? Nunca? Certamente ele quis dizer que eles nunca conseguem resultados 'estatisticamente significativos', porque, caso contrário, obter apenas estudos que vão no sentido oposto à hipótese direcional implicaria num efeito negativo estupendamente significativo.

Então vamos supor que French quis dizer que ele nunca obteve resultados estatisticamente significativos (bicaudal). Mas, mesmo assim, seria esperado encontrar de vez em quando pelo menos um estudo significativo em p < 0.05 puramente ao acaso, assim por exemplo, se ele realizou 20 estudos, aproximadamente 1 deveria ter sido significativo. Então talvez ele supervisionou apenas alguns experimentos, e um estudo significativo ainda tenha que ocasionalmente aparecer. Mas não, isso não pode ser o caso, porque apenas alguns experimentos não poderiam possivelmente fornecer a confiança sobre a existência ou não de psi. Para ganhar confiança no que diz respeito a anomalias, os críticos nos dizem que necessitam de níveis extremos de meta-repetibilidade.

Então talvez ele executou muito mais do que 20 estudos. Mas se esse foi o caso, parece razoável perguntar se uma meta-análise mostraria uma tendência globalmente positiva. Ainda que nenhum estudo individual tenha atingido a significância estatística, se eles tendem a ir na mesma direção, então a coleção de estudos de French ainda seria astronomicamente significativa. Ou talvez a distribuição dos tamanhos de efeito possa ter uma variação significativa. A conclusão é que declarações levianas como ‘nunca conseguem resultados positivos’ são dispositivos retóricos os quais nunca devemos aceitar pelo seu valor de face.

 

Esses dispositivos retóricos usados por French do tipo “tento arduamente e nunca consigo resultados positivos” foram igualmente comentados pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake em entrevista fornecida ao skeptiko.com[4], em outubro de 2009. Na ocasião, o entrevistador Alex Tsakiris indagou a Sheldrake:

 

Para começar, vamos conversar um pouco sobre algumas das replicações que o grupo do Dr. French fez dos seus experimentos. Agora ele foi muito direto ao afirmar que ele nunca, e nem qualquer um de seus alunos, foram capazes de replicar qualquer um dos seus experimentos [i.e., de Sheldrake], apesar de muitas tentativas. Você teria algo a comentar sobre essa afirmação?

 

Sheldrake assim respondeu:

 

Bem, sim. Eu quero dizer que isso soa como se ele arduamente tivesse tentado durante um longo período de tempo e nada do que eu [experimento] nunca funciona quando eles [experimentam]. Isso não é bem assim e, em primeiro lugar, não houve muitas tentativas. Ele fez um ‘experimento de ser observado’[5], e acredito que isso foi a primeira coisa que ele fez que era relacionada ao meu trabalho. Ele usou métodos diferentes daqueles que usei e seu aluno veio com um resultado estatisticamente significativo por um teste e não significativo por outro. Provavelmente aquele primeiro que usaram foi o mais apropriado, mas isso foi no limite da significância, por isso pedi os dados para analisá-los usando diferentes procedimentos estatísticos. Eles tinham usado um teste t e havia outras maneiras de fazer a análise. Eu só queria ver como elas funcionariam. Ele disse, bem, eu não poderia fazer isso porque eles descartaram os dados(...).

 

Enfim, pesquisas de French e seu grupo, as quais atingem resultados alegadamente nulos, raramente têm seus dados divulgados, ficando muito difícil de se atribuir qualquer confiabilidade aos experimentos, não só porque seus dados, procedimentos e metodologia são descartados pelos experimentadores ou não costumam ser publicados formalmente, deixando assim de ser escrutinizados, mas também porque não se tem notícia da quantidade de experimentos que foram conduzidos para atingir uma margem razoavelmente segura sobre os dados. Quer dizer, considerando que estamos diante de fenômenos de pequeno efeito e que, por isso, são exigidas muitas tentativas para que possam ser estatisticamente revelados, importante questionar: quão duro French e seu grupo se esforçam para dizer que nenhum efeito psi apareceu? Algo semelhante foi dito pela estatística Jessica Utts à Ray Hyman por ocasião da discussão em 1995 sobre o fenômeno de visão remota inquirido pelo American Institutes for Research:

 

O problema é estar-se relativamente seguro que um resultado bem sucedido exige centenas de tentativas/ensaios, e nenhum aluno tem os recursos para se comprometer com esta experiência. Como eu repetidamente tentei explicar ao Professor Hyman e outros, ao lidar com um pequeno a médio efeito, leva-se centenas ou às vezes milhares de testes para estabelecer ‘a significância estatística’. De fato, os estudos dos médicos sobre a saúde, os quais inicialmente estabeleceram o vínculo entre a aspirina e a redução de ataques cardíacos, examinaram mais de 22.000 homens. Tivessem sido conduzidos com apenas 2.200 homens, com a mesma redução em ataques cardíacos, não se teria alcançado a significância estatística. Os alunos deveriam ser obrigados a recrutar 22.000 participantes e conduzir tal experiência antes de nós acreditarmos que a conexão entre aspirina e ataques cardíacos é real?

 

French também acredita que o viés de publicação é muito mais danoso na parapsicologia do que em relação a psicologia porque a confirmação de psi requer uma revisão radical da Ciência. Em primeiro lugar, French e alguns outros críticos, apesar de argumentarem que a existência psi exige uma profunda revisão na Ciência, nunca apontam quais teorias científicas (notadamente aquelas bem solidificadas na nossa rede de conhecimento) deveriam ser revisadas para acomodar os fenômenos parapsicológicos. Aqui mais uma vez o que vemos são dispositivos retóricos articulados para vencer o debate em torno de uma controvérsia científica, ainda que a linha de argumentação seja lançada de uma forma completamente irrefletida. De mais a mais, convém repetir a resposta de Carter para James Alcock em Persistent Denial: a Century of Denying the Evidence (2010):

 

Na mesma linha, Hyman (1996b) escreveu que os resultados procurados pelos parapsicólogos supostamente desafiam todas as ciências, e não apenas uma teoria em particular dentro de um determinado domínio. Mas nem Alcock nem Hebb (1951) já se preocuparam em explicar de que maneira as alegações da parapsicologia ‘seguem desafiando’ a ciência, ou como ‘a física e a fisiologia dizem que ESP não é um fato’. Na verdade, é raro para um contra advogado fornecer um exemplo de que a psi colide com os achados das outras ciências.  Nessas raras ocasiões (Carter, 2007, pp 131-136), eles, invariavelmente, invocam os princípios da física clássica os quais têm sido conhecidos por estarem fundamentalmente incorretos por quase um século.

No entanto, um número de prestigiosos físicos como Henry Margenau, David Bohm, Brian Josephson e Olivier Costa de Beauregard tem repetidamente salientado que nada na mecânica quântica proíbe os fenômenos psi. Costa de Beauregard (1975) ainda afirma que a teoria da física quântica praticamente exige que fenômenos psi existam e Walker (1979) desenvolveu um modelo teórico de psi com base na ortodoxa interpretação de von Neumann a respeito da mecânica quântica.

O argumento de Hyman (na Skeptical Inquirer, 1996b) que a aceitação da psi exigiria que "abandonássemos a relatividade e a mecânica quântica em suas atuais formulações" revela-se, desse modo, equivocado. Ao contrário do que já disse Flyman, Costa de Beauregard (1975, 1979) observou que a "mecânica quântica relativística é um esquema conceitual no qual fenômenos como psicocinese ou telepatia, longe de serem irracionais, devem, pelo contrário, ser esperados como muito racionais "(p.101).

Como já referido, a adesão a uma antiquada metafísica da ciência parece muito mais prevalente entre os psicólogos do que entre os físicos. Na pesquisa anteriormente mencionada, apenas 3% dos cientistas naturais consideraram ESP ‘uma impossibilidade’, em comparação com 34% dos psicólogos. Críticos como a psicóloga Susan Blackmore (1989) gostam de dizer que a existência de psi é incompatível ‘com a nossa visão de mundo científica’, mas com qual visão científica de mundo? Psi é certamente incompatível com a visão científica do mundo antigo, com base na mecânica newtoniana e na psicologia behaviorista. Ela não é incompatível com a emergente visão científica de mundo, com base na mecânica quântica e na neurociência cognitiva.

Mas mesmo antes da mecânica quântica começar a substituir a mecânica clássica na década de 1920, diversos físicos estavam muito mais abertos a investigar os fenômenos psi do que a maioria dos psicólogos parece hoje. Um número surpreendente de renomados físicos do século XIX manifestaram interesse na pesquisa psíquica, incluindo: William Crookes, o inventor do tubo de raios catódicos, usado até recentemente em televisores e monitores de computador; JJ Thomson, que ganhou o Prêmio Nobel em 1906 pela descoberta do elétron; e Lord Rayleigh, considerado um dos maiores físicos do final do século XIX e vencedor do Prêmio Nobel de Física em 1904. Claro que, por seus esforços em investigar esses e outros fenômenos incomuns, tais cientistas foram frequentemente criticados e ridicularizados sem piedade por seus colegas.

O grande psicólogo Gardner Murphy (1969), ex-presidente da American Psychological Association e da American Society for Psychical Research, exortou seus colegas psicólogos para conhecerem melhor a física contemporânea, não só pela sua importância para a parapsicologia, mas para a psicologia em geral.

 

Sobre o problema do viés de publicação para artigos com resultados positivos, convém relembrar que ele não tem sido confirmado na parapsicologia. Como sabemos, o critério de até 5 estudos não reportados para 1 publicado é o ordinariamente utilizado para concluir que o engavetamento de artigos negativos é uma justificativa plausível para os resultados. Mas na parapsicologia o que vemos é uma estimativa muito grande de estudos negativos e não publicados para nulificar o efeito psi, de modo que o reporte seletivo de estudos positivos não tem sido uma justificativa apropriada para explicar os resultados experimentais. O próprio French admite que o problema de reporte seletivo é muito maior dentro da psicologia. Sheldrake (idem, 2009), através de entrevistas informais sobre o assunto, concluiu da mesma maneira, estendendo tal problemática às demais áreas da ciência ortodoxa:

 

(...) em qualquer campo da ciência, incluindo a psicologia — e eu falo agora do mainstream, da ciência totalmente normal – as pessoas experimentam todos os tipos de coisas e publicam coisas que dão resultados bem definidos. Acho que as pessoas na parapsicologia fazem o mesmo. Elas provavelmente publicam numa proporção maior as experiências que não funcionam do que em relação a outras áreas. Já fiz pesquisas sobre pessoas que trabalham nos campos convencionais da ciência, como bioquímica e biologia molecular, genética, psicologia e perguntei-lhes, 'qual a proporção de seus dados que você publica?' A maioria respondeu, sabe, entre 5 e 10%. Há um enorme efeito filedrawer na ciência normal.

 

French também rejeita veementemente que a controvérsia sobre a existência de psi tenha um componente ideológico. Para ele a discussão gira somente em torno da evidência a qual – segundo pensa – não tem emergido dos estudos experimentais de forma suficientemente contumaz para comprovar a realidade de fenômenos parapsicológicos. No seu artigo Missing the point? (em Krippner e Feldman, 2010), ele fala  

 

A segunda afirmação com a qual discordo é a insistência de Carter que o debate não é sobre a evidência. Por mais que ele não goste que seja assim, o debate está, na verdade, focado centralmente em cima das evidências — e, em particular, sobre o fracasso da parapsicologia em produzir um único efeito psi robusto e replicável para a satisfação da mais ampla comunidade científica (...) Cientistas são, por natureza, curiosos e de mente aberta e não há nenhuma dúvida que a visão científica convencional como exemplificada pela física moderna é aquela na qual noções muito mais estranhas do que telepatia são aceitas sem qualquer escrúpulo. É realmente possível que em tal contexto todos esses cientistas curiosos e de mente aberta iriam um instante sequer hesitar em investigar psi caso a prova fosse tão forte? A verdade é que a maioria dos cientistas ortodoxos não veem hipóteses parapsicológicas como susceptíveis de serem temas fecundos para investigação -, mas uma única demonstração poderosa e robusta de um efeito psi provavelmente mudaria essa situação muito rapidamente.

 

Porém, aquilo que French não percebe é que o ponto central não é somente a intensidade da estranheza dos fenômenos, mas sim o tipo de estranheza. Decerto, coisas como matéria e energia escuras, relativismo tempo-espacial e entrelaçamento quântico são muito chocantes ao nosso senso comum. Disso ninguém duvida. Contudo, por mais que esses conceitos da física sejam estranhos ao nosso senso, eles não provocam repercussões tão contundentes e diretas sobre religião e até mesmo sobre a chance da personalidade sobreviver após a morte corporal. Expliquemos melhor.

 

A partir da Revolução Científica do século XVII, a nova ciência, com suas assunções mecanicista e materialista, armou os intelectuais contra a autoridade da Igreja e suas escrituras. O apelo à razão deixou pouco espaço para a intervenção de divindades ou de forças sinistras que pudessem afetar nossas ações, escolhas e destino. Nesse contexto, a crença em coisas como telepatia e psicocinese é alicerçada, em parte, sobre a mesma base da crença religiosa, consequentemente, porque na visão de muitas pessoas (inclusive de muitos cientistas) a religião é ilusória e nociva, a crença no paranormal também é um perigo à sociedade.

 

Bem sabemos que a vitória da ciência (felizmente) suplantou a superstição de nossa civilização. Por mais que religiões sustentem dogmas contrários a preceitos científicos solidamente edificados, o fato é que hoje em dia nossa educação, do ponto de vista formal, está estruturada em livros que seguem os preceitos da ciência convencional.

 

Agora, em termos históricos, não é errado dizer que a ciência passou a ter elevado status e influência no pensamento de nossa civilização há bem pouco tempo. Assim, muitos intelectuais (com boa dose de razão) possuem certo receio do retorno ao obscurantismo. Para eles, a atenção à psi pode significar um retrocesso à época das trevas, quando fatos naturais eram interpretados como resultado de ações de entidades sobre-humanas.

 

Em sentido oposto, o materialismo-mecanicista certamente nos fornece alguma esperança de efetivamente termos o controle de nossas ações, como efetivamente acreditamos ter. Por exemplo, negar a realidade de telepatia implica afastar a possibilidade de outras pessoas influenciarem mentalmente as decisões que tomamos. Rejeitar telepatia previne-nos ainda do enorme senso de responsabilidade por aquilo que pensamos (e não apenas por aquilo que fazemos), afinal, poderiam nossos pensamentos (ainda que não intencionais) afetar o planeta ou contribuir para a ocorrência de desastres naturais, de acidentes urbanos e quedas de aviões? Haveria a chance de existir algo como uma "psicoesfera", uma mente global, alimentada pelo conteúdo mental de cada ser vivente? Mas não é só. O materialismo-mecanicista livra-nos da possibilidade de entes incorpóreos afetarem nossas escolhas, nossa privacidade e comprometerem nosso futuro. Como pontou o filósofo Michael Grosso (em Doore, 1997):

 

Um universo no qual a vida depois da morte é um fato seria um universo cheio de entidades e de forças desconhecidas e, possivelmente, assustadoras. Relatos sobre possessões demoníacas, assombrações e outros fenômenos misteriosos já não poderiam ser descartados se houvesse razão de acreditar numa vida depois da morte. Ora, eu não ponho em dúvida o fato de que o medo de sinistras forças sobrenaturais continua vivo e atuante nas mentes inconscientes de muitos seres humanos superficialmente racionais.

 

Como já dissemos no início deste site, o materialismo-mecanicista vai além de uma hipótese científica. Ele também é uma forte ideologia. É uma resposta social à superstição e à irracionalidade que levaram o homem a praticar diversas atrocidades no passado. Essa ideologia está ainda forte no pensamento de muitos intelectuais da sociedade atual e, para eles (incluindo cientistas e filósofos), qualquer ameaça (ainda que racional) deve ser dogmaticamente rejeitada. Desse modo, é comum os experimentos científicos que demonstram fendas no programa materialista serem tratados como ciência de 2ª linha ou paraciência. Assim, e por ironia do destino, a mais ampla comunidade científica (diga-se, em algumas ocasiões) transforma-se no demônio a que sempre disse combater: a irracionalidade. 

 

Eis alguns exemplos desse comportamento fundamentalista da “ciência” frente às pesquisas parapsicológicas: o lumiar e psicólogo de Harvard William James (1986) relatou no apagar das luzes do século XIX:

 

Eu convidei, separadamente, oito de meus colegas científicos para virem a minha casa quando quiserem, e se sentarem com a médium cuja evidência publicada em nossas Atas tem sido mais notável. Embora isso significasse no máximo uma hora perdida para cada, cinco deles declinaram a aventura (...) eu convidei outro amigo, psicólogo, para olhar o caso desta médium, mas ele respondeu que isso é inútil, pois se ele chegasse aos resultados que eu reporto, ele simplesmente acreditaria estar alucinando. Quando eu propus como solução que ele permanecesse nos fundos, tomando nota, enquanto sua esposa pegasse a sessão, ele explicou que nunca poderia consentir com a presença de sua esposa nessas apresentações.

 

Em 1958, o vice-presidente da AAAS relembrou as observações do físico Hermann von Helmholtz: ‘não acredito nisso. Nem o testemunho de todos os membros da Royal Society, nem mesmo as evidências dos meus próprios sentidos iriam me permitir acreditar na transmissão de pensamento de uma pessoa para outra independentemente dos reconhecidos canais sensórios. Isso é claramente impossível’”. (Irwin e Watt, 2007). Schwartz (2002) relatou: “Professor Ray Hyman me disse, ‘eu não tenho controle sobre minhas crenças’. Ele tinha aprendido desde a infância que eventos paranormais são impossíveis. Hoje ele se encontra espantado que, mesmo em face de imponente teoria e de dados científicos convincentes, suas crenças não mudaram. Suas repetidas decepções com o passado de fraudes genuínas impedem-no de aceitar a ciência genuína de hoje (p. 224)”.

 

Podemos ainda mencionar a ação de grupos como CSI (vide a seção específica neste site. O CSI é uma organização composta de uma massa de intelectuais de alto nível. É um poderoso grupo de pressão, bem articulado, inclusive na imprensa, que tem como objetivo influenciar e incentivar a crença de que fenômenos "paranormais" não existem ou são impossíveis. Sob a falsa bandeira do ceticismo, muitos de seus partidários nada mais são que extremistas em defesa de uma ideologia materialista-mecanicista. Ademais, por toda a parte IV deste site, vimos diversos outros exemplos de comportamentos fundamentalistas dos mais vociferantes desses extremistas. Alcock, Hyman, Shermer, Randi, Blackmore, Wiseman e Dawkins, entre outros, são todos eles pessoas compromissadas com uma ideologia mecanicista de mundo. Assim, basta recapitular nesta seção muito do que foi escrito sobre eles para verificarmos que French está definitivamente errado.

 

Enfim, o debate sobre psi vai muito além do que discutir a evidência. Na verdade, se a discussão fosse sobre qualquer outra matéria controvertida na ciência, o assunto certamente já teria sido encerrado a favor da existência do fenômeno. Quando French diz “mas uma única demonstração poderosa e robusta de um efeito psi provavelmente mudaria essa situação muito rapidamente”, é algo, no mínimo, bastante ingênuo de se dizer. O fato é que, por mais que provas favoráveis à psi se acumulem, materialistas extremistas irão sempre empurrar a fronteira da comprovação científica para mais longe, exigindo sempre mais evidências enquanto paralelamente se contorcem para desqualificar o trabalho atual do campo. Nenhum corpo de evidência – para eles – será suficiente e jamais assumirão que seu ponto de vista estava errado. Mas como French nada tem de ingênuo, estando bem familiarizado com o assunto, o fato de ignorar o componente ideológico nas discussões que orbitam em torno da psi não pode ser visto senão como mais uma de suas práticas retóricas para vencer o debate.



[1] In Krippner, Stanley e Feldman, Friedman, Harris L. (2010). Debating Psychic Experience: Human Potencial or Human Illusion? Praeger.

[2] Bem's response to Ritchie, Wiseman, and French (mar/2012). Acessado em 06/07/2014.

[3] Idem, in Krippner e Feldman (2010).

[5] Para saber sobre esse tipo de experimento, vide a seção de psicocinese.