Uma breve notícia histórica

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Relatos de fenômenos anômalos sempre existiram na humanidade. Sonhos premonitórios, coincidências bizarras, testemunhos de aparições de mortos e casas reputadas mal assombradas sempre foram uma constante no decorrer de nossa história. Antes do século XVII, poderíamos dizer que a perspectiva de um Cosmos pleno de propósitos, significado e de Entidades sobre-humanas gozava de total imunidade na cabeça das pessoas.

  

Com o desenrolar da revolução científica, do antropocentrismo e do iluminismo, a superstição diante do desconhecido começou a desvanecer-se, cedendo espaço para o racionalismo científico. Assim, à medida que o homem descortinava alguns dos segredos do Universo, gradativamente a perspectiva daquele Cosmos pleno de significado e de propósitos, governado por uma Mente Suprema, abria espaço para a visão mecanicista de mundo.

 

As descobertas científicas (em especial as de Newton, que matematicamente descrevia um universo previsível e tão mecânico quanto um relógio) e a influência impactante das filosofias de Voltaire, Diderot e David Hume ergueram um cenário que decididamente inspirou os seguidores de Descartes a questionarem se o homem também não passaria de uma máquina inteiramente governada por leis físicas tal como o Universo.

 

Na metade do século XIX, esse novo modo de pensar ainda ganhou novo impulso pela difusão das ideais de Darwin. Nessa transformação social, o paranormal foi “banido da existência”, embora ainda se admitisse que a vontade de Deus pudesse interromper o curso natural de causalidade. Newton, por exemplo, pensava que Deus poderia, ocasionalmente, intervir para ajustar a órbita dos planetas (Griffin, 1997).

 

Nos últimos quatro séculos, o materialismo-mecanicista persiste como a corrente popular da ciência, guiando nossa visão de mundo, sendo ensinado como a “verdadeira realidade” em nossas instituições e livros escolares. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que o mecanicismo é apenas uma inferência sobre como enxergar a realidade. Ele não é de nenhuma maneira a única interpretação racional dos fenômenos do mundo. Aliás, existem diversos fenômenos já submetidos ao escrutínio do método científico (como os apresentados neste site) que, se considerados, mostram ser bem provável que o materialismo deve ser rejeitado como uma explicação racionalmente válida. Nesse ponto, Rhine (1947), refletindo sobre o lugar da Mente na natureza, já comentava 

 

Entretanto, bastante estranhamente, não há quem afirme ter provado que a mente é material. Não se registra qualquer teoria física do processo mental consciente. É extraordinário que um ramo da ciência aceite uma opinião sobre a mente não só sem qualquer prova positiva mas sem mesmo formular uma hipótese não comprovada que o justifique. Semelhante atitude só se pode caracterizar como de pura opinião, como ato de ‘fé’. Entretanto, tornou-se quase tão característica dos círculos científico e das salas de aula como a crença na alma tem sido a das escolas de teologia.

 

De fato, o materialismo-mecanicista vai além de uma hipótese científica. Ele é uma forte ideologia. É uma resposta social à superstição e à irracionalidade que levaram o homem a praticar diversas atrocidades no passado. Essa ideologia está tão fortemente enraizada na sociedade atual que qualquer ameaça (ainda que racional) é dogmaticamente rejeitada. Desse modo, é comum os experimentos científicos que demonstram fendas no programa materialista serem tratados como ciência de 2ª linha ou paraciência. Assim, e por ironia do destino, a comunidade científica (diga-se, em algumas ocasiões) transforma-se no demônio a que sempre disse combater: a irracionalidade.

 

No século XIX, esse mecanicismo chegou a ser levemente ameaçado pelo nascimento do espiritualismo, não porque tal movimento social estimulava a renascença irracional do sobrenatural, mas porque alguns dos fenômenos ditos paranormais estavam sendo confirmados pelos mesmos métodos utilizados pela ciência moderna. Debates ferozes se estenderem nos círculos científicos da época, reputações foram manchadas, sociedades foram formadas para investigar de forma imparcial alegações paranormais e prestigiosos homens da ciência defenderam a existência de certos fenômenos anômalos, tais como a telepatia, a clarividência e a psicocinese.

 

Tudo começou precisamente em 1848, quando a história de contatos com os mortos exsurgiu a partir de um caso típico poltergeist, em Hydesville, EUA. A enorme repercussão das meninas Margarett e Kate Fox "contaminou" diversas pessoas na América (mais tarde na Europa), quando muitos passaram a acreditar serem possuidores de poderes psíquicos. Os fenômenos espíritas, como então eram chamados, basicamente se reduziam a efeitos físicos, a exemplo de pancadas sem contato que pareciam ser comandadas por alguma inteligência (os espíritos dos mortos, diziam os espiritualistas). Quatro anos mais tarde, o fenômeno das batidelas (ou tiptologia) virou moda nos círculos sociais ingleses e franceses.

 

Numa conferência em 1882, William Barrett, renomado físico do período vitoriano, propôs a fundação da Society for Psychical Research (S.P.R), instituição ainda ativa que conta em sua biografia com os mais célebres pesquisadores, incluindo quatro prêmios Nobel, John William Strutt (Lord Rayleigh), Charles Richet, J. J. Thomson e Henri Bergson, notórios intelectuais que posam na história dessa Sociedade ao lado de outros gigantes do conhecimento, como William James, Henry Sidgwick, William Crookes, F. W. H. Myers, Sir Oliver Lodge, Alfred Russel Wallace, F. C. S. Schiller, William McDougall, C. D. Broad, Robert H. Thouless, G. N. M. Tyrrell, Gardner Murphy, Carl Jung e Ian Stevenson. Ao longo dos tempos, os membros e colaboradores da Sociedade produziram uma massa absurdamente gigantesca de evidências a favor de manifestações psíquicas paranormais, inclusive a de mentes desencarnadas serem capazes de se comunicar com algumas pessoas especialmente dotadas. Com apenas 7 anos de existência, o grupo destinado a investigar telepatia já havia produzido mais de 1.200 páginas de provas em apoio (Heywood, 1993).

 

As primeiras experiências de percepção extrassensorial foram associadas ao hipnotismo. Vide as pesquisas do Dr. E. Azam, Pierre Janet e Edmund Gurney, por exemplo. Na realidade, uma feliz associação, pois alguns estudos apontam para o papel psi-condutivo do estado hipnótico e de outros estados alterados da consciência.

 

Então, pegando carona no movimento espiritualista, por assim dizer, é que no século XIX foi presenciado o notável surto de interesse na percepção extrassensorial e na psicocinese. Podemos citar as pesquisas de René Warcollier (R.W) e Pierre Janet (P.J). Por exemplo, R. Tocquet (1967) menciona que numa das experiências, R.W fixou o olhar num cartão postal holandês datado de 1952, cartão esse que reproduzia moinhos de vento à beira dum canal. Em seguida esse cartão postal lhe lembrou inconscientemente um outro cartão postal representando três jovens holandesas com coifas, de braços dados e que ele trouxera de Utrecht em 1953. A percipiente, Mme. T., escreveu: “mulheres de braços dados, de coifas. Paisagem holandesa, moinhos de vento, tulipas, canais floridos”.

 

P.J cita o caso de uma paciente, Josephine, que reproduzia simpaticamente todas as impressões sensoriais de seu hipnotizador, isolado num outro aposento. Se bebia, ela realizava movimentos de deglutição; se beliscava o braço ou a perna, ela se indignava. Uma queimadura fê-la dar gritos horríveis e indicou o lugar exato que correspondia à lesão do operador hipnótico (Tocquet, idem).

 

Mencionemos ainda as experiência no Havre levadas a cabo por P.J e Gilbert e controladas por Myers e Ochorowicz. O mencionado experimento assinalou que a sugestão hipnótica poderia ter êxito ainda quando o paciente estivesse a mais de 2km de distância (Sudre, 1966; Ochorowicz, 1982). Outros casos espontâneos surgidos naquela época reforçaram o interesse na pesquisa sobre percepção extrassensorial, ainda que de forma incidental e secundária, uma vez que o fenômeno primário a ser estudado tenha sido alguns estados alterados de consciência, tais como o sonambulismo, a hipnose e a histeria. Vide os casos de Lurancy Vennum, reportado pelo Dr. E. W Stevens (1878); de Hélène Smith, pelo Dr. Theodore Flournoy (1891/1892); da Srta. Beauchamp, anunciado pelo Dr. Morton Henry Prince e pelo professor James Hyslop (1905) e o de Frederic L. Thompson, relatado por James Hyslop (1905).

 

Paralelamente, muitas pessoas à época passaram a declarar serem possuidoras das mais variadas habilidades paranormais, tais como a capacidade de movimentar objetos sem contato (psicocinese), a de ler pensamentos (telepatia), a de observar remotamente certos acontecimentos sem o uso dos sentidos normais (clarividência), a de conhecer o futuro (precognição) ou até mesmo a de se comunicar com os mortos (mediunidade). Muito embora a grande maioria dos casos possa ser rejeitada pela fraude, autoilusão, uso de controles experimentais inadequados, reportes mal feitos, vieses do experimentador, permanece na literatura psíquica um resíduo de casos que não pode ser explicado pelas hipóteses “usuais”. Por exemplo, os extensos relatórios das sessões de Leonora Piper, de Gladys Orborne Leonard e de Stefan Ossowiecki não deixam dúvidas de que, no mínimo, algumas pessoas possuem certas faculdades psíquicas completamente anômalas, como a telepatia e a clarividência nesses casos.

 

A metodologia usual antes da ‘Era Rhine’ resumia-se principalmente na execução das séances (sessões) nos círculos europeus e dos EUA, quando os fenômenos produzidos pelo psíquico ou médium eram analisados num aposento, geralmente com baixa luminosidade, por pessoas interessadas, incluindo crédulos, mas também intelectuais e cientistas da época. Durante essas sessões, muitos médiuns foram descobertos em fraude, a exemplo de Eusapia Paladino, Henry Slade, Florence Cook, Marthe Béraud e Margery Crandon. É bem verdade que as medidas antifraudes foram sendo aperfeiçoadas com as experiências, conforme resumiu Fodor (1952):

 

Com o desenvolvimento da ciência dos sistemas de imposição, cada vez mais controles eficientes foram evoluindo. As mangas e as calças dos Irmãos de Davenport foram amarradas em Bangor, E.U.A., Politi foi levado à Sociedade de Pesquisa Psíquica de Milão num saco de lã, Mme. D 'Esperance, Senhorita Wood e Senhorita Fairlamb foram atadas em redes como peixes para prevenir simulação durante suas sessões de materialização, Srta. Florence Cook foi trancada (num circuito elétrico), Bailey foi fechado em uma gaiola com rede de mosquito na Austrália, Eusapia Paladino foi amarrada pelo Prof. Morselli na poltrona com uma faixa espessa e larga de fita cirúrgica do tipo usado em hospícios para segurar maníacos, e Rudi Schneider estava sob um controle triplo formidável no National Laboratory of Psychical Research.

 

Em que pese a evolução das medidas de salvaguarda nos experimentos psíquicos, é fato que a interpretação dos acontecimentos dentro das sessões sempre dependeu da avaliação subjetiva, tanto por parte daqueles que presenciaram em primeira mão como pelos que leram os reportes dos casos. Sendo assim, alguns pesquisadores começaram achar necessária uma nova abordagem experimental para a psi, foi quando então o fisiologista e Nobel Charles Richet introduziu o uso do modelo estatístico dentro da pesquisa psíquica, muito embora a difusão massiva dessa técnica tenha sido realizada posteriormente por Rhine.