Precognição

 

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O folclore e as muitas histórias anedóticas têm promovido alguns indivíduos que alegam serem capazes de "profetizar" o futuro, ou experimentarem premonições de eventos antes deles realmente aconteceram. Enquanto muitas dessas informações são provavelmente devidas a erros de interpretação, a deturpações ou a outras falhas da percepção humana, da memória e do raciocínio, existem achados experimentais que sugerem que a precognição pode acontecer (Delanoy, 1993).

 

A relação causa-efeito ordinária repousa na premissa de que causas sempre precedem temporalmente consequências, como se o tempo fosse somente linear e unidirecional, e que o ‘agora’ seria, por inteiro, explicado por causas ‘pretéritas’. Desse modo, a existência de precognição destruiria a moderna concepção sobre a causalidade, pois um evento futuro modificaria outro presente. Melhor explicando: porque precognição implica, obrigatoriamente, na possibilidade de retrocausalidade, acontecimentos futuros afetariam a percepção presente de indivíduos, invertendo-se a seta do tempo, ao produzir-se um efeito antes de sua causa.

 

Mas, ao contrário de nossa crença sobre a temporariedade unidirecional, a exclusão de fenômenos que envolvem tempo reverso sobre a ordem de causa e efeito “apresenta um elemento de assimetria dentro da teoria física, que alguns físicos sentiram que fora indevido ou que reclamaria futuras explicações (...). Assim, se esses fenômenos de fato ocorrem, nenhuma mudança nas equações fundamentais da física seria necessária para descrevê-los”, já concluía o físico Gerald Feinberg (em Carter, 2007). No mesmo sentido, o físico Euan Squires concluiu que “nós deveríamos notar que as leis fundamentais da física são completamente neutras em relação à direção do tempo, i.e, elas ficam inalteradas se mudarmos a direção da variável tempo (...) conceitos como ‘passado’ e ‘presente’, separados pelo ‘agora’, não têm um lugar natural nas leis da física. Presumivelmente é por isso que Einstein escreveu a um amigo [dizendo] que a distinção entre passado e presente era apenas uma ilusão teimosamente persistente (idem).

 

De fato, é um erro pensar que a precognição viola as leis fundamentais da física. Não há nada em suas equações que diga que esse tipo de fenômeno é impossível. Veremos agora então algumas das evidências sobre os fenômenos de precognição e de pressentimento.

 

Estudos de escolha-forçada

 

A primeira classe de experimentos de precognição foi conhecida como estudos de escolha-forçada nos quais um participante deveria “adivinhar” uma das cinco cartas do baralho Zener (que seria selecionada subsequentemente ao ato de escolher através de algum processo randômico). A denominação de escolha-forçada justifica-se na medida em que o sujeito está ciente das possíveis opções de escolha, sendo solicitado a escolher uma das opções como resposta (ao contrário da metodologia de respostas-livres, como nos estudos ganzfeld). Se após muitas e muitas tentativas o sujeito consegue manter um escore superior a 20% então aparentemente ele, em algumas tentativas no experimento, utilizou-se de precognição para antecipar corretamente a carta que seria selecionada no futuro, assumindo que as medidas de salvaguarda foram eficazes (i.e., controles contra vazamento sensorial, pistas inconscientes, fraude, etc.) (Radin, 2013). Esses estudos são entendidos por alguns como sendo metodologicamente superiores a outros estudos de PES (percepção extra-sensorial), pois há pequena possibilidade do sujeito "trapacear", ou receber quaisquer sugestões sutis sobre a identidade do alvo, uma vez que este não existe quando a resposta é feita (Delanoy, 1993).

  

Honorton e Ferrari conduziram uma meta-análise de 309 estudos de precognição efetivados entre 1935 e 1987. Todos esses estudos usaram a metodologia de escolha-forçada. Os estudos incluídos nessa meta-análise foram conduzidos por 62 investigadores diferentes e englobam quase 2 milhões de tentativas individuais levadas a cabo por mais de 50.000 sujeitos. Enquanto o tamanho médio do efeito por tentativa é pequeno (es = .02), ele é suficientemente consistente para o efeito global desses estudos por ser altamente significativo (z combinado = 11.41, p = 6.3 x 10-25). Quer dizer, as chances de o acaso ser uma explicação para esses estudos é de 10 seguido por 25 zeros para 1. Usando oito diferentes medidas de qualidade do estudo, nenhuma relação sistemática foi encontrada entre o resultado do estudo e a qualidade do estudo.

 

A explicação de reporte seletivo (efeito filedrawer) também deve ser excluída. Seriam necessários 14.268 estudos não relatados e nulos para reduzir a significância do banco de dados a níveis do acaso. Ou seja, 46 estudos nulos e não publicados para cada experimento conhecido. Como Radin adverte, efeito filedrawer é uma possível explicação quando a razão estimada é de 5:1. No caso, a relação foi de esmagadores 46:1.

 

Dada a larga diversidade dos métodos de estudo e de procedimentos encontrados nesse banco de dados, não é assombroso os resultados do estudo terem sido extremamente heterogêneos. Os autores eliminaram os extremos ao descartarem aqueles estudos com z escores caindo dentro dos 10% dos limites superior e inferior da distribuição, restando assim 248 estudos. Deveria ser observado que a eliminação de estudos da margem, visando obter homogeneidade, é uma prática comum; e, em segundo lugar, em resenhas não-parapsicológicas, é às vezes necessário descartar cerca de 45% de estudos para alcançar uma distribuição homogênea do tamanho do efeito'' (Delanoy, 1993). O resultado médio de uma tentativa para o tamanho do efeito foi .012 e o z escore combinado ainda altamente significativo (z = 6.06, p = 1.1 x 10-9). Enquanto foi observado que a qualidade do estudo significativamente melhorava com o passar desses 55 anos nos quais os estudos foram conduzidos (coeficiente de correlação r[246 graus de liberdade] = .282, p = 2 x 10-7), os tamanhos do efeito dos estudos não covariaram significativamente com o ano de publicação. Os tamanhos do efeito dos estudos são homogêneos, passando por 57 investigadores que contribuíram para o banco de dados elaborado. O resto das análises conduzidas foi todo apresentado nesse banco de dados menor (Delanoy, 1993).

 

Os autores identificaram quatro variáveis "moderadoras" que pareceram estar sistematicamente relacionadas ao resultado do estudo. A primeira variável envolveu a população dos sujeitos. Foi descoberto que os estudos que usavam sujeitos selecionados com base em boa performance em sessões experimentais anteriores de PES obtinham significativamente melhores efeitos PES que aqueles estudos usando sujeitos não-selecionados (um t teste com 246 graus de liberdade [df] dando t = 3.16, p = 0.001). Outra variável que covariou com o tamanho do efeito do estudo era se os sujeitos estavam sendo testados individualmente ou em grupos, com estudos de testes individuais obtendo resultados significativamente mais altos que aqueles que usavam métodos de teste em grupo (t[200df] = 1.89, p = 0.03) (Delanoy, 1993).

 

Uma variável moderadora adicional envolveu o tipo de feedback recebido pelo sujeito a respeito da precisão de suas respostas. Existiram quatro categorias de feedback, a saber, nenhum feedback, feedback atrasado (normalmente via correio), feedback dado depois de uma sequência de respostas (frequentemente depois de 25 respostas) e feedback dado depois de cada resposta. Dos 104 estudos que forneceram as informações necessárias, existiu uma correlação linear e significativa entre o efeito de precognição e o nível de feedback (r[102df] = .231, p = 0.009), com tamanhos do efeito aumentando com o nível de feedback. Uma descoberta relacionada envolve o intervalo de tempo entre as respostas do sujeito e a seleção do alvo. Essa descoberta é camuflada pelo nível de feedback, uma vez que a duração do tempo entre a resposta e a geração do alvo pode covariar com o nível de feedback (isto é, quando o feedback é dado depois de cada resposta, o intervalo de tempo entre a resposta e a seleção do alvo teria que ser menor do que quando o feedback era dado depois de uma sequência de chamadas, ou um mês depois das respostas serem feitas). Existiram 7 categorias diferentes de intervalo de tempo, variando de um milissegundo até meses. Foi descoberto um declínio significativo nos tamanhos do efeito de precognição à medida que o intervalo de tempo entre a resposta e a seleção do alvo aumentava (r[142df] = -.199, p = 0.017). A significância entre a relação declínio temporal e o tamanho do efeito do estudo é devida completamente àqueles estudos que usaram sujeitos não-selecionados, com os estudos que testaram sujeitos selecionados mostrando um pequeno e não significativo aumento no escore para precognição enquanto o intervalo de tempo aumentava (a diferença entre esses grupos não foi significativa) (Delanoy, 1993).

 

Devia ser notado que não existiu nenhuma diferença significativa na qualidade entre os estudos usando sujeitos selecionados e não-selecionados. Ainda, estudos que testaram sujeitos individualmente mostraram uma qualidade de estudo significativamente mais elevada do que aqueles utilizando procedimentos para testes em grupo (t[137df] = 3.08, p = 0.003). Uma correlação entre o nível de feedback e a qualidade das pesquisas foi positiva, mas não significativa (r[103] = .173, p = 0.82) (Delanoy, 1993).

 

Sumarizando as descobertas de precognição, Honorton e Ferrari concluíram que "os experimentos de precognição em escolha-forçada confirmam a existência de um pequeno, mas altamente significativo efeito de precognição". Além disso, eles concluíram que o resultado mais importante da meta-análise foi a identificação das variáveis moderadoras, que não apenas fornece diretriz para pesquisas futuras, mas pode também ajudar a expandir nossa compreensão sobre o fenômeno (Delanoy, 1993).

 

Estudos de respostas-livres

 

Nesses experimentos, o participante, enquanto se esforça para adivinhar o alvo futuro que será selecionado randomicamente, reporta livremente qualquer impressão que lhe vem à mente. Os alvos podem ser formas coloridas, simples e abstratas; fotografias de cenas naturais; ou locais reais. Em muitos desses casos o participante descreve um local que será visitado por um dos pesquisadores no futuro, por exemplo, após alguns minutos de o participante fizer a sua descrição. No momento de descrição, absolutamente nenhuma pessoa têm conhecimento do local a ser visitado. Radin (2013) nos informa que muitos pesquisadores têm reportado experimentos de respostas-livres, sendo que as 2 maiores coleções de estudos relevantes vêm de a) do Stanford Research Institute (SRI), de 1973 a 1988, e Science Applications International Corporation (SAIC), de 1988 a 1995; e b) Princeton PEAR Laboratory, de 1978 até o final da década de 90.

 

Análise de 770 testes de respostas-livres conduzidos no SRI resultou em probabilidades contra o acaso de cerca de 300 milhões para 1. Outros 445 testes conduzidos no SAIC chegaram a um resultado mais modesto, com probabilidades contra o acaso de 1.6 milhão para 1. No PEAR, foram rodados um total de 653 sessões, resultando em probabilidade contra o acaso de 33 milhões para 1. Em todos esses casos o tamanho do efeito reportado por dois grupos independentes foi o mesmo (cerca de 0,20). A média do tamanho do efeito desses experimentos foi 10 vezes maior do que nos estudos de escolha-forçada, evidenciando que, quanto mais a metodologia experimental se aproxima das características da vida cotidiana, sem os limites artificias impostos pelos projetos de escolha-forçada, resultados mais robustos são obtidos (Radin, 2013).