QUANDO OS MORTOS RESPONDEM: UM EXAME CRÍTICO DAS PERSPECTIVAS SOBREVIVENCIALISTA E DA
INTERAÇÃO PSÍQUICA ENTRE VIVOS COMO MODELOS EXPLANATÓRIOS PARA OS CASOS DE MEDIUNIDADE

 

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por André Luís Neves Soares[1]

[Atualizado em 02/08/2015]

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SUMÁRIO

 

1. Introdução

1.2. Levando o debate para bases racionais

1.3. Os dados de Mediunidade

2. Fundamentos da Hipótese da Sobrevivência (S) para os casos de mediunidade (CMs)

2.1. Comentários a respeitos de S1

que a mente e o cérebro não tenham uma relação do tipo produtiva, no sentido de que o último seja causa necessária da primeira”.

2.2. Comentários a respeitos de S2

que, após a morte, o conjunto das características psicológicas do falecido, especialmente sua cadeia de memórias, caráter e sentido de identidade, não sofra uma modificação simultaneamente radical e inesperada, a fim de que possamos inferir a sobrevivência de sua personalidade e comprovar sua identidade, i.e., que comunicador e falecido são numericamente o mesmo indivíduo”.

2.2.1. O problema da identificação post-mortem

2.2.2. O problema da dissolução da personalidade ordinária

2.3. Comentários acerca de S3

que alguns falecidos tenham interesse, desejo e motivação na comunicação com os vivos”.

2.4. Comentários acerca de S4

que algumas pessoas falecidas tenham percepção extrassensorial (PES) para que possam se comunicar com o médium, influenciando-o telepaticamente; ou então manipulando seu sistema motor, via psicocinese (PK), a fim de expressar mais informações, além de exibir as habilidades e maneirismos que tinham em vida. Falecidos também devem usar PES para tomar ciência de acontecimentos que ocorreram após a morte ou mesmo cognoscer, por meios telepáticos, os pensamentos do médium, dos assistentes e de seus entes queridos ainda vivos”.

2.5. Comentários acerca de S5

que a transição da morte provoque um efeito liberador das capacidades psi de uma pessoa, de modo que um sujeito, o qual nunca demonstrou talentos psíquicos quando encarnado, passe a manifestar habilidades psi sub-repticiamente, influenciando intensamente o médium com seus pensamentos ou tomando o comando executivo do corpo biológico via psicocinese”.

2.6. Comentários acerca de S6

que uma pessoa viva (o médium) tenha uma sensibilidade especial, qualquer que seja sua natureza, para manifestar cognitivamente os efeitos da influência telepática de um falecido ou para lhe ceder transitoriamente o controle corporal”.

3. Fundamentos da hipótese psi exercida exclusivamente por agentes vivos (LAP) como alternativa para explicar os casos de mediunidade (CMs)

3.1. Comentários acerca de LAP1

“excluídas as chances de aquisição normal de informações, o material verídico produzido durante CMs deve ser, alternativa ou cumulativamente: a) obtido pela percepção extrassensorial do médium, o qual possui uma capacidade psíquica de ‘sondar’, ainda que involuntariamente, fontes mundanas e/ou impessoais (por exemplo, (a.1) através de processos telepáticos, adquirindo informações relevantes nas mentes/cérebros de pessoas vivas que conheciam o falecido; (a.2) por meios clarividentes, com foco em objetos físicos (diários, fotografias ou quaisquer outros documentos) os quais registram dados sobre a vida do falecido; (a.3) com o uso de telepatia retrocognitiva, quando o médium adquiriria tudo o que precisa diretamente da mente/cérebro do falecido, porém, quando ele ainda se encontrava vivo; (a.4) por intermédio de uma incursão telepática num reservatório de memórias Universal e impessoal); b) fornecido pelas mentes/cérebros de pessoas que conheciam o finado, as quais, nutrindo desejos e esperanças em contatar o falecido, acabam por involuntária e telepaticamente ‘influenciar’ a mente/cérebro do médium na direção correta, provendo-lhe informações verídicas”.

3.1.1. O problema das múltiplas fontes de informação

3.2. Comentários acerca de LAP2

o médium e/ou os consulentes devem ter desejos, necessidades e motivações para se comunicarem com pessoas falecidas”.

3.3. Comentários acerca de LAP3

em determinados casos, especialmente na mediunidade de transe, o médium experimenta uma divisão de sua consciência ordinária (personalidade A), quando um novo ‘eu’ assume o comando corporal e alega ser uma pessoa que já teve uma existência corpórea (personalidade B). Essa nova personalidade controladora, oriunda das camadas subconscientes do médium, é capaz de dramatizar o caráter de quem alega ter sido quando encarnado (digamos, B'), apresentando hábitos, gostos, maneirismos, inflexão de voz e, algumas vezes, habilidades que parentes e amigos de B' identificam como sendo correspondentes àqueles de B'. Em outras oportunidades, a personalidade controle B serve de porta-voz para uma outra personalidade secundária (C). Durante a sessão, B repassa aos consulentes tudo o que consegue “ouvir” e entender de C; e tal como BC também sustenta ser alguém que teve uma existência terrena (C'). Muito embora C não tenha o controle corporal do médium, o material fornecido a B é capaz de igualmente convencer parentes e amigos de C' de que C possui um caráter semelhante ao de C'. Essa habilidade de encenação altamente criativa e verídica às vezes relaciona-se a falecidos os quais o médium teve um contato extremamente tênue ou mesmo nenhum”.

4. Casos mediúnicos: Sobrevivência post-mortem (S) ou Living Agent Psi (LAP)?

 

 

 

 

1. Introdução

 

Relatos de fenômenos psíquicos anômalos sempre existiram na humanidade. Sonhos premonitórios, coincidências bizarras, testemunhos de aparições de mortos e casas reputadas mal assombradas sempre foram uma constante no decorrer da história da humanidade. Antes do século XVII, poderíamos dizer que a perspectiva de um Cosmos pleno de propósitos, significado e de Entidades sobre-humanas gozava de total imunidade na cabeça das pessoas. Com o desenrolar da revolução científica, do antropocentrismo e do iluminismo, a superstição diante do desconhecido começou a desvanecer-se, cedendo espaço para o racionalismo científico. Assim, à medida que o homem descortinava alguns dos segredos do Universo, gradativamente a perspectiva daquele Cosmos pleno de significado, governado por uma Mente Suprema, abria espaço para a visão mecanicista de mundo.

 

Na metade do século XIX, esse novo modo de pensar ainda ganhou novo impulso pela difusão das ideais de Darwin. Nessa transformação social, o paranormal foi banido da existência, embora ainda se admitisse que a vontade de Deus pudesse interromper o curso natural de causalidade. Newton, por exemplo, pensava que Deus poderia, ocasionalmente, intervir para ajustar a órbita dos planetas (Griffin, 1997[2]). Nos últimos quatro séculos, o materialismo-mecanicista persiste como a corrente popular da ciência, guiando nossa visão de mundo, sendo ensinado como a “verdadeira realidade” em nossas instituições e livros escolares. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que o mecanicismo é apenas uma inferência sobre como enxergar a realidade. Ele não é de nenhuma maneira a única interpretação racional dos fatos e fenômenos do mundo. Aliás, existem diversos fenômenos já submetidos ao escrutínio do método científico (como os abaixo apresentados) que, se considerados, mostram que o materialismo simplesmente deve ser rejeitado como uma explicação racionalmente válida. Nesse ponto, Rhine (1965)[3], refletindo sobre o lugar da Mente na natureza, já comentava

 

Entretanto, bastante estranhamente, não há quem afirme ter provado que a mente é material. Não se registra qualquer teoria física do processo mental consciente. É extraordinário que um ramo da ciência aceite uma opinião sobre a mente não só sem qualquer prova positiva mas sem mesmo formular uma hipótese não comprovada que o justifique. Semelhante atitude só se pode caracterizar como de pura opinião, como ato de ‘fé’. Entretanto, tornou-se quase tão característica dos círculos científico e das salas de aula como a crença na alma tem sido a das escolas de teologia.

 

O materialismo-mecanicista vai além de uma hipótese científica. Ele é uma forte ideologia. É uma resposta social à superstição e à irracionalidade as quais levaram o homem a praticar diversas atrocidades no passado. Essa ideologia está fortemente enraizada na sociedade atual que qualquer ameaça é dogmaticamente rejeitada. Desse modo, é comum os experimentos científicos que demonstram fendas no programa materialista serem tratados como ciência de 2ª linha ou paraciência. Então, por ironia do destino, a comunidade científica (em algumas ocasiões) transforma-se no demônio a que sempre disse combater: a irracionalidade.

 

No século XIX, esse mecanicismo chegou a ser levemente ameaçado pelo nascimento do espiritualismo, não porque tal movimento social estimulava o renascimento irracional do sobrenatural, mas porque alguns dos fenômenos ditos paranormais estavam sendo confirmados pelos mesmos métodos utilizados pela ciência moderna. Debates ferozes se estenderem nos círculos científicos da época, reputações foram manchadas, sociedades foram formadas para investigar de forma imparcial alegações paranormais e prestigiosos homens da ciência defenderam a existência de certos fenômenos anômalos, tais como a telepatia, a clarividência e a psicocinese. Infelizmente, grande parte do público nunca teve contato com essa espécie de material.

 

Tudo começou precisamente em 1848, quando a história de contatos com os mortos transformou-se num movimento social por ocasião de um caso típico poltergeist, em Hydesville, EUA. A enorme repercussão das meninas Margarett e Kate Fox "contaminou" diversas pessoas na América (mais tarde na Europa), quando muitos passaram acreditar serem possuidores de poderes psíquicos. Os fenômenos espíritas, como então eram chamados, basicamente se reduziam a efeitos físicos, a exemplo de pancadas sem contato que pareciam ser comandadas por alguma inteligência (os espíritos dos mortos, diziam os espiritualistas). Quatro anos mais tarde, o fenômeno das batidelas (ou tiptologia) virou moda nos círculos sociais ingleses e franceses.

 

Numa conferência em 1882, William Barrett, renomado físico do período vitoriano, propôs a fundação da Society for Psychical Research (S.P.R)[4], instituição ainda ativa que conta em sua biografia com os mais célebres pesquisadores, incluindo quatro prêmios Nobel, John William Strutt (Lord Rayleigh), Charles Richet, J. J. Thomson e Henri Bergson, notórios intelectuais que posam na história dessa Sociedade ao lado de outros gigantes do conhecimento, como William James, Henry Sidgwick, William Crookes, F. W. H. Myers, Sir Oliver Lodge, Alfred Russel Wallace, F. C. S. Schiller, William McDougall, C. D. Broad, Robert H. Thouless, G. N. M. Tyrrell, Gardner Murphy, Carl Jung e Ian Stevenson. Ao longo dos tempos, os membros e colaboradores da Sociedade produziram uma massa absurdamente gigantesca de evidências a favor de manifestações psíquicas paranormais, inclusive a de mentes desencarnadas serem capazes de se comunicar com algumas pessoas especialmente dotadas.

 

As primeiras experiências de percepção extrassensorial foram associadas ao hipnotismo. Vide as pesquisas do Dr. E. Azam, Pierre Janet e Edmund Gurney, por exemplo. Na realidade, uma feliz associação, pois alguns estudos apontam para o papel psíquico-condutivo do estado hipnótico e de outros estados alterados da consciência. Então, pegando carona no movimento espiritualista, por assim dizer, é que no século XIX foi presenciado o notável surto de interesse na percepção extrassensorial e na psicocinese (i.e., a influência de pensamentos e intenções sobre objetos ou sistemas físicos). Podemos citar as pesquisas de René Warcollier e Pierre Janet. Por exemplo, R. Tocquet (1967)[5] menciona que numa das experiências, R.W fixou o olhar num cartão postal holandês datado de 1952, cartão esse que reproduzia moinhos de vento à beira dum canal. Em seguida esse cartão postal lhe lembrou inconscientemente um outro cartão postal representando três jovens holandesas com coifas, de braços dados e que ele trouxera de Utrecht em 1953. A percipiente, Mme. T., escreveu: “mulheres de braços dados, de coifas. Paisagem holandesa, moinhos de vento, tulipas, canais floridos”. Pierre Janet cita o caso de uma paciente, Josephine, que reproduzia simpaticamente todas as impressões sensoriais de seu hipnotizador, isolado num outro aposento. Se bebia, ela realizava movimentos de deglutição; se beliscava o braço ou a perna, ela se indignava. Uma queimadura fê-la dar gritos horríveis e indicou o lugar exato que correspondia à lesão do operador hipnótico.

 

Paralelamente, muitas pessoas à época passaram a declarar serem possuidoras das mais variadas habilidades paranormais, tais como a capacidade de movimentar objetos sem contato (psicocinese), a de ler pensamentos (telepatia), a de observar remotamente certos acontecimentos sem o uso dos sentidos normais (clarividência), a de conhecer o futuro (precognição) ou até mesmo a de se comunicar com os mortos (mediunidade). Muito embora a grande maioria dos casos possa ser rejeitada pela fraude; autoilusão; uso de controles experimentais inadequados; relatórios mal feitos; vieses do experimentador; permanece na literatura psíquica um resíduo de casos que não pode ser explicado pelas hipóteses “usuais”. Por exemplo, os extensos relatórios das sessões de Leonora Piper, de Gladys Orborne Leonard e de Stefan Ossowiecki não deixam dúvidas de que, no mínimo, algumas pessoas possuem certas faculdades psíquicas completamente anômalas, como a telepatia e a clarividência nesses casos.

 

A metodologia usual (antes da Era Rhine) resumia-se principalmente na execução das séances (sessões) nos círculos europeus e dos EUA, quando os fenômenos produzidos pelo psíquico ou médium eram analisados num aposento, geralmente com baixa luminosidade, por pessoas interessadas, incluindo crédulos, mas também intelectuais e cientistas da época. Durante essas sessões, muitos médiuns foram descobertos em fraude, a exemplo de Eusapia Paladino, Henry Slade, Florence Cook, Marthe Béraud e Margery Crandon. É bem verdade que as medidas antifraudes foram sendo aperfeiçoadas com as experiências, conforme resumiu Fodor e Lodge (1952)[6]:

 

Com o desenvolvimento da ciência dos sistemas de imposição, cada vez mais controles eficientes foram evoluindo. As mangas e as calças dos Irmãos de Davenport foram amarradas em Bangor, E.U.A., Politi foi levado à Sociedade de Pesquisa Psíquica de Milão num saco de lã, Mme. D 'Esperance, Senhorita Wood e Senhorita Fairlamb foram atadas em redes como peixes para prevenir simulação durante suas sessões de materialização, Srta. Florence Cook foi trancada (num circuito elétrico), Bailey foi fechado em uma gaiola com rede de mosquito na Austrália, Eusapia Paladino foi amarrada pelo Prof. Morselli na poltrona com uma faixa espessa e larga de fita cirúrgica do tipo usado em hospícios para segurar maníacos, e Rudi Schneider estava sob um controle triplo formidável no National Laboratory of Psychical Research.

 

Passada essa pequena incursão histórica sobre experiências psíquicas anômalas, convém desde logo destacar o termo psi, que será abundantemente mencionado no decorrer do presente artigo. De acordo com o psicólogo e professor emérito da Cornell University, Daryl J. Bem (2011)[7], a psi

 

denota o processo de transferência de energia ou informação que é atualmente inexplicável em termos de mecanismos físicos ou biológicos. O termo é puramente descritivo; ele não implica que o fenômeno seja paranormal e não sugere nada a respeito de seus mecanismos subjacentes.

 

Fenômenos psi historicamente encobrem a telepatia, a aparente transferência de informação de uma pessoa a outra sem a mediação dos canais sensórios conhecidos; a clarividência, a percepção de objetos ou eventos os quais não excitaram quaisquer dos canais sensórios conhecidos; a precognição (cognição consciente) e a premonição (apreensão afetiva) de um evento futuro que não poderia ser antecipado por qualquer processo inferencial; e a psicocinese, a aparente influência de pensamentos e intenções sobre processos físicos ou biológicos (Bem, idem).

 

Este artigo objetiva analisar criticamente as duas principais explicações supernormais para os casos de Mediunidade, a saber:  a hipótese da sobrevivência post-mortem e a do funcionamento psíquico entre vivos. O trabalho detalha pormenorizadamente cada uma dessas conjecturas, ressaltando ao leitor os mais notáveis argumentos contra e a favor a cada uma das posições aqui rivalizadas, além de apresentar todas as pressuposições que subjazem esses dois modelos explanatórios e as quais quase sempre são ignoradas dentro das discussões sobre Mediunidade.

 

Oportuno advertir que o presente exame crítico-filosófico estender-se-á dentro, mas também para além da argumentação científica, porque as duas hipóteses rivais abaixo apresentadas são suportadas em certos momentos por algumas assunções não-empíricas e altamente controversas. Por outro lado - e é o que faz o tópico da mediunidade ser tão cativante - são os relatos de casos de alguns médiuns extraordinários, exaustivamente testados sob condições controladas, que tornam uma explicação “normal” (com uso de artefatos experimentais, fraude deliberada ou inconsciente, vazamento sensorial, vieses de expectativa, coincidências, etc.) até mesmo irracional. E dentre esses fantásticos médiuns, sem dúvida as Sras. Leonora Piper e Gladys Osborne Leonard são as figuras mais destacadas para qualquer pessoa de bom senso que esteja a par da literatura psíquica.

 

Para o leitor que discorda deste meu posicionamento, apostando ainda suas fichas no sentido de que os melhores casos de mediunidade podem ser respondidos por um paradigma "normal" (e não supernormal), sugiro a leitura dos extensos relatórios de casos relacionados às médiuns acima indicadas e que foram publicados por décadas nos jornais e nas atas da Society for Psychical Research, de Londres. Ademais, e para fazer justiça a produção mediúnica, os casos dessas senhoras de nenhuma maneira mostram-se isolados, havendo na história da pesquisa psíquica muitos outros médiuns que manifestaram fenômenos os quais racionalmente demandam explicações com suporte em faculdades extrassensoriais ou de ação à distância sem contato. Alguns resumos de casos desses outros médiuns também veremos aqui.

 

Agora, para aqueles que – igual a mim – fracassaram em enquadrar a fenomenologia mediúnica (ao menos aquela emergida dos melhores casos) em explicações “normais”, porém ainda possuem uma tendência conservadora, posso dizer que todo o conteúdo do presente trabalho permanece coerente, ainda que considerássemos unicamente a produção mediúnica das duas médiuns supracitadas [e para um excelente resumo que rebate as explicações “normais” sobre Piper e Leonard, veja o capítulo 3 de Randi's Prize - What Sceptics Say About the Paranormal, Why They are Wrong and Why it Matters, de Robert Mcluhan].

 

A característica mais marcante dos casos mediúnicos (doravante também CMs) é o fato de um sujeito (comumente conhecido como médium) obter, à revelia dos sentidos sensoriais, informações verídicas sobre a vida de uma pessoa morta e situações ocorridas nas vidas de pessoas ligadas ao falecido. CMs também são caracterizados por uma roupagem “transcendental”, porque as informações percebidas pelos médiuns vêm pretensamente no ponto de vista do falecido, além de conterem claras referências de uma existência - e de um mundo - espiritual. A interpretação pelo valor de face de casos mediúnicos, ou seja, de que algumas pessoas falecidas podem telepaticamente influenciar os vivos, será daqui em diante chamada de a hipótese da sobrevivência ou simplesmente hipótese S.

 

Contudo, acima dessa aparência, CMs também podem ser interpretados como exemplos de psi exercida pelo médium o qual, de forma inconsciente, dramatiza uma suposta comunicação com pessoas mortas. De fato, em alguns lapsos críticos CMs parecem indicar o esforço de uma mente desincorporada em se comunicar com os vivos, porém, em outros momentos, o que vemos é a ação de uma fértil imaginação do médium (ou de algum álter ego nele manifestado) misturada com claros exemplos de obtenção de informações da mente dos vivos por meios telepáticos, amontoando-se tudo isso dentro de um contexto espiritualista cujo autor pretensamente seria alguém falecido. Então aqui podemos frisar, desde logo, algumas das principais razões porque CMs são tão dúbios de decifrar:

 

Em primeiro lugar, existe uma marcante ambiguidade sobre a interpretação das fontes de informações captadas através de psi. Há exemplos que suportam, de um lado, a comunicação post-mortem, e de outro, casos em que o médium obtém informações sobre a vida do falecido a partir de fontes mundanas, seja através da telepatia com pessoas as quais conheciam circunstâncias a respeito do falecido, ou então, pelo uso da clarividência com foco em registros físicos que continham informações relacionadas ao morto. Para esta última interpretação dos casos, na qual o funcionamento psíquico dos vivos seria exclusivamente responsável pelos aspectos supernormais encontrados nos cenários mediúnicos, utilizaremos a nomenclatura cunhada pelo filósofo Michael Sudduth, Living Agent Psi, ou simplesmente hipótese LAP.

 

Em segundo lugar, nos melhores casos mediúnicos as informações chegam com frequência de um modo a refletir nitidamente o ponto de vista do falecido, não apenas em relação ao conteúdo, mas também através do uso da linguagem, tom de voz, comportamentos e maneirismos próprios de uma pessoa morta. Por outro lado, ainda os melhores médiuns compartilham características etiológicas típicas de pessoas com distúrbios dissociativos e outras desordens da personalidade. Por exemplo, não raro a mediunidade é despertada após certa experiência traumática na vida do médium. Além disso, algumas personalidades falecidas são claramente fictícias ou estereotipadas, cristalinos exemplos de personificação inconsciente. 

 

Em terceiro lugar, alguns médiuns exibem habilidades associadas ao falecido, tais como falar um idioma estrangeiro, pintar, escrever obras literárias, jogar xadrez ou falar com desenvoltura assuntos técnicos de conhecimento do morto. Sobrevivencialistas frequentemente sustentam que tais acontecimentos são fortemente sugestivos de sua posição, porque requerem um “conhecimento-como”, i.e., um conhecimento o qual somente a repetida prática e treinamento podem permitir alguém desenvolver certa habilidade. Quando esses casos aparecem, sobrevivencialistas ocasionalmente investigam o passado do médium e concluem que ele ou nunca teve o benefício da prática sobre a habilidade relacionada ao caso, ou se teve algum contato, foi insignificante a ponto de permitir que o médium, inconsciente ou conscientemente, a desenvolvesse na extensão apresentada dentro das sessões mediúnicas. Todavia, como o filósofo Stephen Braude (2003) assinala,

 

O terceiro problema com a literatura sobre sobrevivência é que ela falha em abordar assuntos centrais relacionados à natureza e aos limites das habilidades humanas, especialmente aquelas emergidas da (a) vasta literatura sobre dissociação, (b) do estudo de savantes e prodígios e (c) da crescente literatura sobre sujeitos altamente dotados e inteligentes, mas que [atingem resultados frustrantemente abaixo do esperado]. A relevância de (a) é que na hipnose, na múltipla personalidade e em certas formas de automatismo, a dissociação parece liberar ou permitir o desenvolvimento de habilidades que presumivelmente não teriam sido manifestadas de outra forma. A relevância de (b) é que prodígios e savantes (e ainda pessoas comuns) podem exibir habilidades sem a submissão aos processos normais de aprendizagem e de prática, e (talvez o mais importante) na ausência de outras habilidades e capacidades que poderíamos esperar ocorrer paralelamente [...]. Além disso, tanto (a) quanto (c) fortemente sugerem que nós todos podemos ser reservatórios de latentes criatividades e inteligências.

 

Em quarto lugar, investigadores de casos sugestivos de sobrevivência post-mortem raramente prestam aprofundada atenção sobre os elementos psicológicos envolvidos no caso. Esse ponto é de especial importância para determinar se o médium tem interesses, necessidades de sub-repticiamente usar, consciente ou inconscientemente, habilidades psíquicas para criar evidências (ou influenciar eventos) de um modo a sugerir a sobrevivência após a morte (Braude, idem). Novamente, na histórica da pesquisa psíquica temos uma miscelânea de exemplos, os quais ora sugerem um baixo nível de interesse do médium (e.x., bons casos de comunicadores “drop-in”), ora indicam uma carência psicológica, uma profunda necessidade na existência de fenômenos que respaldem a crença numa vida após a morte.

 

 

1.2. Levando o debate para bases racionais

 

 

Pessoas podem acreditar numa vida após a morte por diversos motivos, a despeito de qualquer análise imparcial (ou mesmo de conhecimento) sobre fenômenos que poderiam contribuir para essa crença. Muitos se sentem desconfortáveis com a ideia da própria extinção ou de seus entes queridos, outros sofrem a influência de doutrinas religiosas ou filosóficas que pregam a sobrevivência à morte. Alguns passam por experiências místicas ou no limiar da morte que favorecem uma perspectiva de transcendência. Ainda há aqueles que necessitam acreditar na existência de uma “outra vida” como forma de justificar seus preceitos morais e suportar a aleatoriedade e a injustiça do mundo. Todos esses elementos não são mutuamente exclusivos, podendo, portanto, agir em conjunto para reforçar cada vez mais o sistema de crença numa “vida futura”.

 

De outro lado, existem importantes debates filosóficos sobre a (ir)redutibilidade causal da mente ao cérebro, além de alguns fenômenos críticos que lançam um desafio real ao establishment fisicalista na comunidade científica, tais como a própria psi; casos de influências psicofisiológicas extremas; exemplos de sujeitos com capacidade e precisão extremas de informação; automatismos e centros secundários de consciência; o elevado nível de criatividade dos gênios; a experiência subjetiva; a unidade da experiência consciente; e o fenômeno da memória (Kelly, E. et. al., 2007). Todos esses assuntos são relevantes e, de fato, põem em dúvida a capacidade do cérebro ser o tipo de hardware adequado para produzir mentes.

 

Seja como for, a maioria das pessoas não está familiarizada com tais assuntos, mas apesar disso quase todos têm uma opinião formada sobre a questão da sobrevivência após a morte, variando desde a descrença a total credulidade. Porém, ordinariamente tais opiniões estão formadas sob frágeis alicerces conceituais os quais pressupõem premissas logicamente impossíveis ou não suportadas empiricamente; exclusão de inferências viáveis para um conjunto de dados; ou mesmo a admissão de assunções que vão de encontro às teorias científicas mais bem estabilizadas na atual rede de conhecimentos humanos.

 

 Tal é assim porque o debate da sobrevivência após a morte invariavelmente provoca fortes conflitos emocionais, religiosos e ideológicos, os quais dificilmente são deixados de lado. Agora, a psicologia subjacente a esse cenário é especialmente interessante, porque, em outros campos da vida, as pessoas comumente são mais criteriosas e exigentes para aceitar ideias.

 

Considerando que este trabalho se propõe a levar a discussão para bases racionais, e não enviesadas por necessidades psicológicas ou emocionais, ou por um conjunto de crenças religiosas, ou ainda ideologias, as hipóteses para responder por casos mediúnicos devem buscar:

 

a) ser logicamente possíveis, i.e., não serem autocontraditórias e nem fazerem uso de hipóteses auxiliares mutuamente exclusivas;

 

b) ser inferências, i.e., interpretações coerentes para alguns fenômenos observáveis;

 

c) fazer predições sobre alguns fenômenos observáveis e, simultaneamente, não serem surpreendidas com dados inesperados, os quais escapam sua predição inicial (como condição de testabilidade). Todavia, conforme já observamos no início deste artigo, isso nem sempre será possível, pois algumas hipóteses auxiliares de S ou LAP são não-empíricas, além de altamente controversas. Na verdade, os casos mais sugestivos de sobrevivência são melhor elucidados em termos de plausibilidade ou parcimônia de S sobre LAP (ou vice-versa), inexistindo algo como “uma boa margem de segurança nas respostas”.

 

Além disso, devemos observar que quase sempre fenômenos são multi-inferenciais, levando-nos a interpretações ambíguas. Nesse caso, devemos testar o poder explanatório de cada hipótese concorrente. Decerto a melhor hipótese científica, além de possuir as exigências retromencionadas, deveria explicar os mesmos fenômenos de suas rivais, porém, e principalmente, ser aquela a sofrer o menor número de surpresas com dados inesperados à sua predição inicial, evitando hipóteses auxiliares ad-hoc. Outras virtudes também podem ser mencionadas, tais como, ser uma hipótese mais conservadora (i.e., ser o menos divergente possível às teorias científicas mais bem estabilizadas); mais simples, econômica e elegante (fazendo uso da menor quantidade de pressuposições); e consiliente (buscar um alcance multidisciplinar, integrando-se na rede de conhecimentos humanos).

 

Nas linhas que se seguem, analisaremos o poder explanatório das hipóteses S e LAP, para casos de mediunidade, com fulcro nas orientações acima e com vistas a descobrir a explicação racionalmente mais parcimoniosa. Contudo, antes disso, faremos uma breve incursão sobre as principais características dos casos de mediunidade, baseando-nos nos tipos mais evidenciais já registrados na história das pesquisas psíquicas.

 

 

1.3. Os dados de Mediunidade

 

 

Definitivamente o atributo de maior relevância nos casos de mediunidade é a canalização de informações verídicas por parte de uma pessoa viva (comumente conhecida como médium) e as quais pretensamente provém de uma personalidade falecida, ou seja, existe uma correspondência entre aquilo que o médium diz e a vida de uma pessoa morta ou a situações, passadas ou presentes, ocorridas nas vidas de pessoas ligadas ao falecido. O processo de canalização ocorre à revelia dos sentidos sensoriais habituais, além do que, outros aspectos psicológicos associados ao morto podem ser canalizados pelo médium, tais como habilidades, comportamentos e maneirismos.

 

O termo canalização usado aqui é completamente neutro quanto à fonte das informações, isto é, se elas provém de uma pessoa falecida, ou alternativamente, de origens mundanas, tais como o cérebro de outras pessoas vivas (via telepatia entre vivos) ou registros escritos (através de clarividência exercida pelo médium). A neutralidade do termo também se estende ao sentido do fluxo das informações, ou seja, serve tanto para a hipótese de o médium psiquicamente sondar as fontes de informação (ainda que de forma inconsciente), quanto para estas influenciarem o cérebro/mente do médium[8]; ou mesmo para designar quaisquer mecanismos de interação informacional (como aqueles da mecânica quântica) entre o cérebro/mente do médium e as fontes de informação.

 

As impressões extrassensoriais obtidas pelo médium durante o processo mediúnico podem chegar na forma de alucinações (na maioria das vezes visuais e sonoras), normalmente associadas a um “estado alterado de consciência” denominado transe[9]. Pode acontecer também que o sistema motor do médium ganhe autonomia e passe a realizar certos comportamentos autônomos e inteligentes, como no caso da escrita automática (ou psicografia). A mediunidade também pode surgir sobre outras roupagens, tais como a transcomunicação instrumental, a psicopictografia e a tiptologia, sendo que as duas primeiras formas (o transe e a psicografia) são as mais comuns e evidenciais, razão pela qual iremos especificamente nos focar nelas[10].

 

De modo particular, o transe tem sido historicamente o meio mais sugestivo da sobrevivência da personalidade pre-mortem porque, através dele, a entidade comunicante consegue não apenas transmitir mensagens verídicas, mas também manifestar outros aspectos psicológicos associados ao falecido, tais como idiossincrasias e habilidades que possuía na vida corpórea. Nas notas de referência do segundo capítulo de Irreducible Mind (2007), a psicóloga Emily Kelly aponta sobre a superioridade evidencial do transe, além de especular que a maior parte dos médiuns contemporâneos age fora desse estado alterado de consciência (ou de outros), o que explicaria, segundo pensa, a qualidade inferior dos casos atuais de mediunidade em relação aos do passado. Observe-se:

 

Vale também a pena notar [...] que a maioria dos melhores médiuns estudados extensivamente no final do século XIX e início do XX foi automatista de transe. Embora a mediunidade tenha nos últimos anos se tornado um tema de interesse para o público em geral, e, portanto, para a mídia, poucos dos médiuns de hoje parecem entrar num estado alterado [de consciência], muito menos num "transe" ou estado alternado de personalidade. Na teoria de Myers, a suspensão do supraliminar é favorável, senão absolutamente necessária, para o surgimento da mentação subliminar, seja da própria mente ou da de uma pessoa falecida. Essa diferença notável entre os médiuns atuais e os automatistas do passado pode explicar porque, na minha opinião, o material produzido por médiuns recentes geralmente tem uma qualidade probatória muito menor.

 

Durante o processo mediúnico, a consciência do médium pode ser removida, porém podem ocorrer exemplos de co-consciência, o que é mais comum nos médiuns psicográficos. Especificamente no transe, uma consciência secundária, via de regra, assume o controle do organismo do médium, servindo de porta-voz para outras personalidades comunicantes[11]. Essa consciência controladora tem seu próprio banco de memórias e caráter, enfim, ela constitui uma personalidade integral a qual desloca de modo intermitente a do médium[12].  Quando o médium recupera o controle corporal, ele muitas vezes ignora completamente o que aconteceu durante o transe. Em outros momentos algumas reminiscências podem ficar retidas, a exemplo da imagem de pessoas falecidas.

 

Tanto o controle (ou guia, conforme doutrinas espiritualistas) quanto os comunicadores incidentais alegam ser personalidades falecidas, mas sua própria natureza é ambígua, aliás, existem mais razões para acreditar que, pelo menos os controles, são fases ou elementos da consciência do médium. Neste momento, é prudente então destacar que os termos controles e comunicadores usados no presente trabalho são totalmente neutros, podendo designar mentes desencarnadas que se comunicam através dos médiuns ou personalidades secundárias desenvolvidas dentro de sua psique. Um outro termo muito usado e que, portanto, merece esclarecimento desde logo é o de assistente. O assistente é aquele que participa presencialmente de uma sessão mediúnica, podendo ser o próprio pesquisador ou os parentes e amigos do falecido (que são assistentes enlutados ou os consulentes das mensagens).

 

Existem casos de médiuns extraordinários, tais como as Sras. Piper e Leonard, cuja carreira ensejou a manifestações de centenas de personalidades pretensamente falecidas. De regra, como já mencionamos, o controle assume o organismo do médium, mas por muitos momentos ele cede transitoriamente o lugar para um comunicador incidental manifestar-se. No caso daquelas médiuns, apesar do gigantesco número de comunicadores, os comportamentos peculiares deles sempre se mantiveram coerentes todas as vezes que se manifestaram pelo corpo da médium, ainda quando grandes lapsos de tempo entre uma “incorporação” e outra se sucediam[13].

 

 Durante a vida do médium, mais de um controle pode aparecer, porém, geralmente, há um principal. Podemos citar a guia indígena-asiática “Feda”, da britânica Sra. Gladys Osborne Leonard; o árabe “Uvani”, de Eileen Garrett; o médico francês, “Dr. Phinuit”, da bostoniana Sra. Leonora Piper; “Fletcher”, do médium Arthur Ford; e “Emmanuel” e “André Luiz”, controles do médium mineiro Chico Xavier. Os controles principais, em especial aqueles que surgiram no início da experiência mediúnica, raramente conseguem fornecer alguma evidência concreta de que algum dia já tiveram uma existência corpórea (apesar de alegarem isso) e quase sempre sustentam ter sido personalidades não contemporâneas (muitas vezes pessoas célebres), o que dificulta a confirmação de sua vida terrena, consequentemente, não contribuindo para a validação de S:

 

As alegações dos controles de terem existido anteriormente como humanos encarnados apresentam outro problema em suas avaliações. A maior parte dos controles alega uma vida distante e discreta que afronta qualquer verificação. O controle de D. D. Home sempre falava no plural e nunca dava seu nome. Stainton Moses era ocupado por uma liga organizada de controles que incluíam personagens bíblicos, filósofos, sábios e personalidades históricas. Os personagens bíblicos chamavam-se "Imperator" (Malaquias), "Preceptor" (Elias), "O Profeta" (Haggai), "Vates" (Daniel), "Ezequiel", "Theophilus" (São João Batista), "Theosophus" (São João, o Apóstolo), e "Theologus" (São João, o Divino) (Melton, G. J., 2000) [14].

 

 Nos melhores momentos, controles disparam grande quantidade de material verídico cuja obtenção não pode ser explicada por outra forma a não ser por um processo anômalo, como a telepatia entre vivos ou entre o falecido e o médium. Isso quase sempre acontece nos primeiros minutos da sessão. Porém, muitas vezes o material fornecido pelos controles degenera num conteúdo vago, repetido, cheio de palpites e “pesca” de informações (por meios normais). Por exemplo, “às vezes o Dr. Phinuit pesca. Ocasionalmente adivinha; e às vezes ele supre a escassez da sua informação com os recursos de uma vívida imaginação” – disse o físico inglês Oliver Lodge (1890) a respeito de um dos primeiros controles da médium Piper. Continuando, Lodge relata, “o processo de pescaria é mais marcante quando a própria Sra. Piper não se sente bem ou está cansada. (...) quando ele [Phinuit] não pesca, simplesmente tira de sua memória e reconta velhos fatos que contou antes, ocasionalmente com adições próprias que não os melhoram”. Brian Williams e William G. Roll (2007)[15] destacam sobre o controle “Uvani” da Sra. Garrett:

 

O psicólogo Ira Progoff perguntou a Uvani durante uma sessão com a senhora Garrett, 'Como você tem estado desde a última vez que nos encontramos?' O questionamento pareceu confundir completamente Uvani e ele não deu nenhuma resposta, muito embora ele próprio tivesse efetuado a mesma pergunta a Progoff durante as sessões anteriores e mostrasse por meio disso que ele entendia a questão.

 

Em Mediunidade e Sobrevivência (1995), o psicólogo Alan Gauld menciona:

 

Feda [controle da médium Gladys Osborne Leonard] sempre fala como se pudesse ver e ouvir diretamente os comunicadores cujas mensagens retransmite. Mas há muito que demonstra não poderem estas alegações serem aceitas integralmente. Assim, a Sra. W.H. Salter (138b, pp. 309, 312) diz, de uma série de declarações feitas por Feda sobre um comunicador, que depois se disse sua mãe (Sra. Verrall): ‘Muitas destas declarações...são verdadeiras; contêm, porém, uma tal mistura de erros que dificilmente surgiriam se o conhecimento de Feda derivasse de qualquer imagem ou série de imagens claramente percebida. ‘E de novo: ‘A conclusão final a que posso chegar...é que uma certa quantidade de informação verídica sobre minha mãe foi entretecida por Feda, numa figura imaginária de uma viúva velha, baseada em ideias preconcebidas do aspecto que tal quadro deveria apresentar’.

 

Ainda quando os controles são altamente convincentes em fornecer evidências de que são quem alegam ter sido em vida, persiste um forte motivo para não darmos crédito a essa reivindicação. Gauld esclarece:

 

Alguns controles, como GP [George Pellew] ou Bennie Junot, são muito semelhantes ao que eram em vida, e, de fato, convenceram muitas pessoas de sua autenticidade. Outros, porém, como Julius Caezar, Sir Walter Scott e George Eliot, que alegou ter encontrado Adam Bede no outro mundo, são tão implausíveis, deformados e estilizados em sua dicção e sentimentos que ninguém os veria como qualquer coisa que não fosse uma ficção. Mas os comunicadores mais plausíveis, garantirão, no tom mais firme, a autenticidade dos menos plausíveis, de modo que a autenticidade do primeiro fica inextricável e desvantajosamente amarrada à autenticidade do último, e torna-se abundantemente claro que a manutenção do drama é de fundamental importância e que todos os controles, de GP até Julius Caezar, são parte integrante da fantasia criativa do dramaturgo.

 

Na sua revisão para Resurrecting Leonora Piper - How Science Discovered The Afterlife, de Michael Tymn, Alan Gauld (2013)[16] detalha ainda mais algumas das embaraçosas características para a hipótese S, relatando um caso no qual até mesmo o convincente comunicador GP toma parte de uma ridícula fantasia, além de assegurar a autenticidade de um outro controle claramente fictício. Observe-se:

 

Pior ainda foi a prolongada história de Dean Bridgman Conner, um jovem de Vermont, que, em 1894, tinha ido trabalhar no México. Em 1895, ele foi dado como morto na Cidade do México pelo Cônsul-Geral americano, por febre tifoide e lá enterrado; mas um sonho que seu pai teve permitiu a suposição de que ele ainda estava vivo e sendo mantido prisioneiro. A Sra. Piper foi consultada, o que levou, em 1896, a uma boa parte dos agentes da família a ser guiada por Phinuit e GP, procurando de hospital a hospital, de prisão a prisão, no sul do México, porém sempre o supostamente elusivo Dean não era achado. Outros espíritos foram cooptados para a pesquisa. Enquanto isso, os controles de Piper em Boston garantiam repetidamente aos pais de Dean que ele ainda estava vivo. Esta história se desenrolou ao longo de muitas sessões, a maioria ainda não publicada. Mas no ano seguinte um audacioso e ponderado jornalista que assumiu o caso foi capaz de conclusivamente provar que Dean tinha morrido, tal como inicialmente relatado pelo Cônsul-Geral (Philpott, 1915). Num ponto durante estes acontecimentos, um comunicador chamado John Heard (um antigo assistente e amigo de Pellew, referido como 'Hart') anunciou que ele tinha voado até ao México na companhia de um 'Julius Caesar' equipado com capacete, armadura e espada. Posteriormente, o próprio Caesar escreveu em inglês (soletrando seu nome com um 'z') e foi seguido por G.P., o qual afirmou que 'Caezar é tão grande quanto era' e que ele (G.P.) estava indo para o México. Numa sessão posterior G.P. acrescentou 'é Julius Caesar' (Sidgwick, 1915, pp.113—15). Aqui temos um comunicador excepcionalmente impressionante (G.P.) e outro que também tinha dado verificadas informações sobre si (Heard), garantindo a autenticidade de um absolutamente ridículo (Caezar), todos os três, estando supostamente engajados numa perseguição completamente sem sentido, uma loucura que eles não conseguiram captar. Sob tais circunstâncias, algum desses comunicadores interligados poderia ser considerado 'autêntico'? Este episódio não é isolado.

 

Não por outra razão Eleanor Sidgwick (1925) concluiu que

 

Às vezes, comunicadores dramáticos, assim como controles, são claramente falsos, e nenhum critério em sua própria representação, ou na sua relação com o controle, é oferecido para que um comunicador falso possa ser diferenciado de um verdadeiro. A existência de falsos comunicadores em geral não é admitida [por eles próprios][17].

 

Além disso, a hipótese de controles e comunicadores serem mentes desencarnadas sofre um novo embaraço, qual seja, personalidades de transe muitas vezes dizem coisas sem sentido exatamente sobre a área de conhecimento a qual o falecido detinham domínio quando em vida. Observa novamente Gauld:

 

Até mesmo os controles mais realistas, tais como GP [George Pellew], mostram sinais de serem imitações (não conscientes). Interrompem-se, no ponto exato em que o estoque de conhecimento da Sra. Piper se esgota, assim como quando lhes é pedido que falem coerentemente de Ciência, Filosofia e Literatura (o que GP em vida poderia ter feito facilmente).

Os controles da Sra. Piper, por vezes, desculpam suas limitações dizendo que chegar até a “luz” do médium produz um efeito de confusão neles, ou que não podem manipular o organismo dela de maneira com as quais ele não está acostumado. Estas desculpas, porém, não são adequadas. A confusão que oblitera o entendimento de Ciência e Filosofia do controle não os impede de gerar montes de bobagens sobre os tópicos religiosos e filosóficos, apresentando-os, por vezes, como as mais profundas verdades, em consequência das perguntas dos assistentes.

 

A “má qualidade”[18] do que é verbalizado durante o transe pode ocorrer desde o início de uma sessão, quando nenhuma novidade de valor significativo é revelada, ou mesmo no decorrer dos melhores casos, quando o estoque de informações “paranormais” acaba, parece que o controle não é “capaz de partir quando seu repertório de fatos estava vazio. Parecia haver alguma liberação irresponsável de energia que precisava continuar até que o impulso original se perdesse em incoerência[19] (Myers, F. H. W., 1889).

 

De fato, a desonestidade dos controles deve ser vista como algo não tão deliberado. Seja lá o que eles forem (mentes desincorporadas ou personalidades secundárias integrantes da psique do médium), quando assumem o comando, parecem experimentar (ou ser) uma fase onírica, com metaperceptividade, da consciência do médium, desenvolvendo um drama de comunicação post-mortem a partir de informações obtidas de fontes externas (por mecanismos normais ou extrassensoriais – o que, para eles, é de certo modo irrelevante). Porém, ainda nos melhores casos, o drama também é preenchido por ilusões, quimeras e devaneios resultantes de um estado de consciência semelhante ao sonho, de modo que o material apresentado é uma mistura de conteúdo altamente verídico com fantasias criadas por eles próprios.

 

O que as tentativas em fornecer comunicações evidenciais constantemente sugerem é um esforço do controle em buscar informações de todas as fontes, palpites, por vezes, pesca de informações dos assistentes, em outros momentos, encaixando ligeiras nuances juntas, e ansiosamente aproveitar qualquer impressão ou informação obtida, seja por meio normal ou telepático, nunca sabendo como elas chegam ou de onde vêm. Um tateio mental desse tipo [...] é o que o percipiente muitas vezes parece sentir fazer em experimentos de transferência de pensamento. Entre numerosas impressões ele tem que escolher o caminho certo. Portanto, certamente parece mais apropriado atribuir tal sentimento sobre a informação, a qual, no final, vem de uma forma incerta e fragmentada, quando vem, a alguma parte da mente da Sra. Piper do que a um espírito exterior (Sidgwick, idem).

 

Realmente, parece que os controles não têm a menor capacidade de distinguir o material que chega extrassensorialmente daquele que é produto de sua imaginação, pois, acaso tivessem, seria conveniente para a qualidade do drama que se calassem toda vez que o estoque de informações anomalamente percebidas acabou. Fazendo coro com Myers e Sidgwick, diz Lodge (1889):

 

Ele [Phinuit] parece estar sob alguma compulsão por não ser silencioso. Talvez o transe cessaria se ele não se esforçasse. De qualquer forma ele tagarela, e tem que se descontar uma grande quantidade de conversa que é, obviamente, e às vezes confessadamente, introduzida como provisória. [...] Ele faz o melhor que pode, mas seria de grande valia se, quando compreendesse que as condições eram desfavoráveis, informasse e então se calasse.

 

Então, vamos manter em mente que: (a) os primeiros (e alguns dos principais) controles alegam ter sido personalidades não contemporâneas, sendo incapazes de fornecer evidências mínimas de sua existência terrena; (b) algumas personalidades de transe sustentam ter sido personagens bíblicos, filósofos e pessoas célebres, mas demonstram um parco conhecimento na área de expertise de quem alegam ter sido; (c) controles pescam dos assistentes informações por meios normais e as reapresentam como se fossem novidades contadas pelos comunicadores incidentais; (d) o conteúdo da mensagem é mesclado com informações verídicas e fantasias provenientes de um estado de consciência semelhante ao sonho. Considerando que algumas dessas fantasias dizem respeitos a fatos verificáveis e, por essa razão, podemos afirmar que são ilusões e devaneios da personalidade de transe, passamos a ter motivos para questionar todos os relatos sobre material inverificável, tais como os relacionados ao ambiente e à aparência de um “mundo espiritual”; (e) os controles mais convincentes de forma frustrante confirmam a autenticidade daqueles flagrantemente fictícios.

 

Além disso, (f) existem claros exemplos que médiuns captam telepaticamente informações da mente dos assistentes e montam um drama de comunicação post-mortem, por exemplo, “um dia Hodgson estivera lendo com grande interesse a Vida de Scott, de Lockhart. No dia seguinte, um ridículo Sir Walter Scott apareceu numa sessão de Piper, dando uma volta turística pelo sistema solar, afirmando haver macacos no Sol” (Gauld, A., idem). Em outros momentos, as personalidades de transe, ainda que passem informações verídicas, as apresentam sob a perspectiva do assistente, observe-se:

 

Phinuit declarou que o Sr. J. T. Clarke estava em dificuldades financeiras, o que era verdade. Phinuit também afirmou mais adiante que as coisas iam melhorar, em quatro meses e meio, e que “algumas pessoas não procederam honestamente com o senhor”. Advertiu Clarke particularmente contra um homem chamado H. Nenhuma das outras assertivas de Phinuit foi comprovada, mas elas refletiam as crenças de Clarke na época (Gauld, idem).

 

No caso abaixo, o controle “Phinuit” passou a Lodge uma série de informações a respeito do falecido Sr. Wilson. Na ocasião, a comunicação foi solicitada pelo filho do finado, George Wilson. Ao colher as informações, Lodge enviou uma carta a este último contando-lhe o ocorrido. Eis a resposta do filho:

 

MEU CARO LODGE, — Sua carta com documento anexo alcançou-me quando estava partindo—e não pude fazer nada até que chegasse aqui. E agora, depois de considerar, penso que devo falar um pouco.

As declarações feitas pela médium caem em duas classes: (1) aquela que se relaciona a assuntos conhecidos por você; e (2) aquela sobre assuntos que você não podia saber—como, por exemplo, minhas circunstâncias atuais ou minha vida passada. O que é dito sobre o primeiro assunto é, como você veria, mais ou menos correto. O que é dito sobre o último é completamente incorreto. (...) E, grosso modo, o tipo de senhor representado é o oposto do caráter digno de meu pai. Ele era tranquilo e equilibrado, odiava exageros, e, como a maior parte dos oficiais do Governo, evitava todas as aparências públicas. Ele detestava gramática ruim, e redigia documentos do Governo com precisão quase penosa[20].

 

Tais exemplos, adicionados aos itens de (a) a (e) destacados acima, reforçam fortemente a hipótese de que as personalidades de transe são fases da consciência da própria médium e que dramaticamente fantasiam representar pessoas falecidas as quais teriam sobrevivido à morte. Enquanto os itens de (a) a (e) sugerem que algumas linhas desse drama são escritas pela rica imaginação dos controles, (f) indica a existência de informações captadas/recebidas telepaticamente da mente dos assistentes, tais como nos casos de Walter Scott, Clarke e Wilson, o que explicaria o material verídico fornecido nas sessões mediúnicas. Então, nesse momento alguém poderia perguntar a um sobrevivencialista: por que sua hipótese é necessária para explicar CMs?

 

Sobrevivencialistas podem sustentar que tais exemplos ocorreram na vida de alguns médiuns de transe, não podendo o argumento contra S ser generalizado nos CMs em que a consciência do médium não ficou totalmente afastada. Particularmente penso haver alguns problemas em dizer isso. Em primeiro lugar, conforme já mencionamos, no estado de transe temos os casos mais fortes a favor de S. Se sobrevivencialistas rejeitarem os médiuns de transe, devem também rejeitar os melhores casos que fortalecem sua hipótese. Em segundo lugar, foram justamente os médiuns de transe aqueles mais bem inquiridos na história da pesquisa psíquica, logo, seus casos são aqueles que com maior margem de segurança excluem as hipóteses normais, tais como fraude, observações mal feitas e leitura fria. Não vejo então como um sobrevivencialista iria querer excluir os relatórios sobre as Sra. Piper e Leonard como exemplos que fundamentam sua posição.

 

Por outro lado, existem exemplos de material o qual podemos classificar de “excelente qualidade”. Quando tal conteúdo aparece, a elocução do transe ou escritos psicografados carregam fortes características psicológicas relacionadas principalmente ao caráter, humor e maneirismos de uma pessoa falecida, além de informações as quais os consulentes acreditam se encaixar perfeitamente no ponto de vista de seu finado ente querido. De fato, é muito difícil encarar tais casos sem assumir que, ao menos em aparência, eles realmente sugerem que uma pessoa morta, sobrevivendo ao choque da morte, entra em contato com os seus conhecidos vivos através do médium.

 

Por exemplo, numa das sessões em 1893, o casal Sutton tomou uma tentativa de comunicação com sua filha Katherine (que morrera seis meses antes) através da médium Sra. Piper. Detalhes como a dor de garganta, a paralisia da língua da menina, o cavalinho que o pai lhe dera, sua febre e a forma dramática como as mensagens são passadas trazem à tona marcantes elementos psicológicos característicos da falecida criança, além de informações verídicas que encaixam exatamente no seu ponto de vista, e não o dos pais. Na seguinte passagem “Phinuit” é o controle, vejamos:

 

Phinuit disse... Uma criancinha está chegando perto de você...” Ele estende as mãos, como que para uma criança, e diz, para reconforta-lo: “Venha cá, querida. Não tenha medo. Venha, querida, aqui está sua mãe.” Ele descreve a criança e seus “cachinhos adoráveis”. “Onde está papai? Quero papai.” (Ele – isto é, Phinuit – toma da mesa uma medalha de prata.) “Quero isto. Quero morder.” (Ela costumava mordê-la) (Estende a mão para uma enfiada de botões.) “Depressa! Quero pôr na minha boca.” (Os botões também. Morder os botões era proibido. Ele imitou exatamente seus modos infantis.) “... Quem é Dodo?” (Seu apelido para o irmão, George.) “... Quero chamar você de Dodo. Diga a Dodo que estou contente. Não chorem por minha causa.” (Põe as mãos na garganta.) “A garganta não dói mais.” (Ela tinha sempre dores na garganta e na língua.) “Papai, fale comigo. Não pode me ver? Não estou morta, estou viva. Estou contente, com a vovó.” (Minha mãe estava morta havia muitos anos.) Phinuit diz: “Aqui estão mais duas. Uma, duas, três, aqui, - uma mais velha, outra mais jovem que Kakie.” (Correto)... A língua desta estaria seca? Ela fica me mostrando a língua. (Sua língua estava paralisada, e ela sofreu muito com isto, até o fim.) Seu nome é Katherine. (Correto.) Ela chama a si mesma de Kakie. Ela morreu no ano passado. (Correto.) “Onde está meu cavalinho?” (Eu lhe dera um cavalinho.) “Cavalinho grande, não este aqui.” (Provavelmente refere-se a um cavalo e carroça de brinquedo de que gostava.) “Papai, quero ir no cavalo (cavalgar).” (Ela pedia por isto ao longo de toda sua doença)... (Perguntei se ela lembrava qualquer coisa depois de ser trazida escada abaixo). “Eu estava tão quente, minha cabeça estava tão quente. (Correto)... Não chorem por mim, isso me deixa triste. Eleanor, quero Eleanor.” (Sua irmãzinha. Chamou muito por ela, no fim de sua doença.) “Quero meus botões. Row, row, - minha música, - cantem agora. Vou cantar com vocês. (Cantamos, e uma voz suave de criança cantou conosco): Lighty row, lighty row, O’er the merry waves to go. Smoothly glide, smoothly glide, Wit the ebbing tide. [Remando de leve, remando de leve Sobre as alegres ondas vamos Deslizando suave, deslizando suave com a maré vazante.] (Phinuit pede-nos que nos calemos, e Kakie termina sozinha): Let the Wind and waters be Mingled with our melody, Sing and float, sing and float, In our little boat. [Que o vento e as águas Se misturem com a nossa melodia, Cantando e boiando, cantando e boiando, Em nosso barquinho.]...Kakie canta: “Bye, bye, baby, bye,bye, O baby bye. Papai, cante essa comigo. (Papai e Kakie cantam. Estas duas eram as canções que ela costumava cantar.) Onde está Dinah? Quero Dinah. (Dinah era uma velha boneca de trapo preta, que não estava conosco). Quero Bagie. (Apelido que dava à sua irmã Margaret.) Quero Bagie para me trazer Dinah... Diga a Dodo, quando o encontrar, que gosto dele. Querido Dodo. Costumava marchar comigo, e me carregava (Correto).’ (Gauld, 1995).

 

Em 1933, em datas e ocasiões distintas, quatro médiuns britânicas (Srtas. Campbell e Bacon e Sras. Leonard e Mason) aparentemente manifestaram a comunicação com um rapaz falecido, Edgar Vandy. Os assistentes no caso foram os irmãos do morto (George e Harold) e o pesquisador psíquico C. D. Thomas. Os irmãos apresentaram-se sob nomes falsos. Cada uma das sessões foi conduzida por um único assistente. Com exceção do Sr. Thomas e da Sra. Leonard, os assistentes e tomadores de notas eram completamente desconhecidos das médiuns do caso. Assim, o comunicador (apresentando-se como o falecido Edgar Vandy) relata, através de quatro médiuns que se desconheciam, o incidente na piscina que o vitimou e muitos outros detalhes para confirmar sua identidade. Nas sessões com a médium Leonard, o comunicador introduziu-se a C. D. Thomas independente de interpelação. Este, que não conhecia Edgar, fora antes solicitado por George Vandy para tentar uma ‘sessão por procuração’ com Leonard com o objetivo de estabelecer comunicação com Edgar. Por esta razão Thomas desconfiou que a personalidade jovial a qual “Feda” (guia de Leonard) afirmava estar presente poderia ser Edgar, embora o próprio Thomas ignorasse até mesmo o nome. Itens evidenciais, e alguns bem íntimos, foram repetidos pelas quatro médiuns, com destaque para a descrição de um dos inventos de Edgar, o qual era uma máquina inédita e bastante complexa; a aparência física do finado; detalhes de sua casa; e pormenores da causa mortis. Em The Case of Edgar Vandy. A Report on a Series of Sittings with Mediums[21], é difícil não concordar com Kathleen Gay (1957) quando conclui:

 

Apesar das irrelevâncias, que confundem detalhes, e algumas declarações contraditórias nessas sessões, pode ser dito que a impressão mais clara deixada na mente do leitor é a notável personalidade de Edgar Vandy, com suas raras qualidades de mente e caráter e sua grande habilidade. Em todas as sessões esta figura trágica é descrita com suas esperanças frustradas e sua angústia e o sofrimento que sua morte intempestiva ocasionou a sua família, e sua incapacidade para retribuir a ajuda àqueles que a deram de muita boa vontade. Acima de tudo, as repetidas declarações de que ninguém teve culpa de sua morte e que ninguém deveria ser responsabilizado. Isso foi um acidente, e o fato de ninguém ter salvado a vida dele deveria ser aceito 'sem raiva, somente com compreensão e lamento'.

 

Outro tipo de caso que normalmente é mencionado como de peso para a hipótese da sobrevivência é o que se convencionou chamar de correspondências cruzadas. Nele, o pretenso desencarnado transmite a determinadas médiuns (desconhecidas entre si) algumas frases as quais, isoladamente, são ininteligíveis. Somente quando todos os trechos são reunidos é que se verifica serem fragmentos de uma única e coerente mensagem, quando o conteúdo inteiro passa a ganhar sentido. Ao que parece esse modelo de caso foi desenvolvido por um dos próprios pioneiros da pesquisa psíquica (Frederic Myers), porém quando já falecido e como forma de comprovar a sua sobrevivência à morte corporal. Myers, em vida, era um perito em Clássico e as médiuns envolvidas (salvo a Sra. Verrall) eram ignorantes a respeito. Por essa razão as correspondências cruzadas carregavam mensagens cifradas em temas da literatura Clássica. Muitos episódios interessantes foram produzidos. Para deixar mais claro, transcrevo um pequeno resumo de Rogo (1991) sobre uma das tentativas do comunicador “Myers” provar sua sobrevivência. As médiuns relacionadas foram Piper, Verrall e sua filha:

 

O auge das correspondências cruzadas provavelmente ocorreu em 1906, quando a Sra. Piper ainda estava na Inglaterra. Durante uma de suas sessões com ela, Piddington dirigiu ao pretenso Myers uma mensagem especialmente construída que preparou o cenário. Explicou ele a "Myers" através da Sra. Piper: ‘Temos conhecimento do esquema de correspondências cruzadas que você está transmitindo através de vários médiuns e esperamos que continue com elas. Tente dar a A e B duas mensagens diferentes, entre as quais não seja perceptível a menor ligação. Depois, logo que possível, dê a C uma terceira mensagem que revele as sugestões ocultas’. Propôs também que Myers designasse suas alusões à correspondência cruzada assinando os escritos pertinentes com um triângulo transcrito dentro de um círculo.

Havia um importante aspecto nessa mensagem, pois foi lida para a médium em transe em latim ciceroniano. A Sra. Piper naturalmente não entendia latim e muito menos um dialeto tão obscuro, mas a língua era bem dominada por Myers quando vivo. Os controles da Sra. Piper responderam à mensagem dizendo que a entendiam.

Demorou apenas algumas semanas para que o falecido Myers decifrasse essa complicada correspondência cruzada. Entre 17 de dezembro e 2 de janeiro, alusões aos temas de estrela, esperança e a poesia de Robert Browning começaram a aparecer nos escritos da Sra. Verrall e sua filha. Essas alusões tiveram pouco sentido para Piddington até quando, em uma sessão com a Sra. Piper em Londres, ele recebeu uma mensagem para ‘procurar Esperança, Estrela e Browning’. As alusões adquiriram sentido perfeito quando Piddington estudou Browning e descobriu que a correspondência cruzada relacionava-se com os temas contidos em seu poema Abt Vogler[22].

 

Outros casos extraordinários de mediunidade podem ser citados, valendo destacar que de nenhuma forma estou esgotando o estoque dos seus melhores momentos. De fato, a literatura psíquica é extremamente rica e bem documentada, facilitando bastante o trabalho de pesquisa, principalmente pelo acesso parcialmente gratuito ao jornal e as atas da Society for Psychical Research.

 

Pois bem, em 1930, sob o comando do tenente HC Irwin, o R101, o maior dirigível do mundo à época, veio a cair em sua rota da Inglaterra para as Índias, vitimando 46 dos 54 passageiros e tripulantes. Três dias depois, numa sessão realizada no National Laboratory of Psychical Research, Harry Price, um pesquisador psíquico apurado em desmascarar médiuns fraudulentos, juntamente com sua secretária e taquígrafa Ethel Beenbarn e o jornalista Ian D. Coster, faziam uma sessão com a médium Eileen Garrett objetivando contatar o célebre e recém falecido Arthur Conan Doyle. “Doyle” não apareceu, mas em seu lugar manifestou-se um homem chamado "Irwin" e que, embora se desculpasse por interferir, insistia em falar. Então, disse Price:

 

[...] a voz da médium novamente ficou alterada e uma entidade anunciou que era o tenente H. Carmichael Irwin, capitão do R101. Ele estava muito agitado, e de uma longa série de frases espasmódicas forneceu aos ouvintes um reporte detalhado e aparentemente muito técnico de como o R101 caiu.

 

Após Coster publicar o resultado da sessão, diversos jornais do mundo começaram a estampar manchetes sobre este possível caso de comunicação post-mortem. À época, Garrett não conhecia Coster e nem sabia do propósito da sessão.

 

Miles Edward Allen (2007) resume alguns outros detalhes:

 

As transcrições da sessão foram solicitadas e cuidadosamente estudadas por especialistas que investigaram o acidente, um dos quais pediu e recebeu uma sessão adicional para entrevistar os tripulantes falecidos do R101. [Charlton, um funcionário do governo britânico,] examinou a transcrição detalhadamente e afirmou que a ideia de que alguém numa sessão pudesse obter de antemão tais informações técnicas era ‘grotescamente absurda’. Várias das declarações de Irwin - como a aeronave era pesada demais para seus motores – eram suposições públicas ou poderiam ser razoavelmente adivinhadas. Mas muitas declarações eram técnicas, confidenciais ou simplesmente desconhecidas para qualquer um à época. Por exemplo, Irwin disse: "Carga muito grande para um voo longo. Mesmo para um SL-8. Diga a Eckener..". Ninguém na sessão sabia o significado de "SL-8" ou reconhecia o nome "Eckener." Os especialistas britânicos que analisaram as transcrições das sessões sabiam que Dr. Eckener foi o criador do Graf Zeppelin, mas mesmo eles tiveram que procurar através de seus registros sobre dirigíveis alemães para descobrir que "SL-8" era o identificador de um dirigível construído pela a empresa Schütte-Lanz, de Mannheim, na Alemanha. Irwin disse: "tracas a estibordo alavancadas." "Tracas", um termo desconhecido para todos na sessão, era uma expressão originalmente naval adotada por designers de dirigível. Tracas são camadas paralelas de placas longitudinais que formam os lados de uma embarcação. Irwin já foi da marinha e por isso “tracas” é um termo que seria provável de ele usar. Irwin disse: “Impossível subir. Não pode cortar. Quase raspou os telhados de Achy. Manteve-se na ferrovia”. Achy, uma aldeia francesa a doze milhas e meia ao norte de Beauvais, estava na rota do R101. Achy podia ser vista num tipo de mapa de artilharia de larga escala levado no R101, mas a aldeia era tão pequena que não aparecia em nenhum mapa de artilharia ou de estrada normais. Nem ela era mencionada nos guias de Baedeker ou Michelin. Ela não se estende sobre a linha ferroviária principal entre Amiens e Beauvais. Testemunhas perto da cidade testemunharam que a aeronave sobrevoou extremamente baixo. Harry Price concluiu: ‘É inconcebível que a senhora Garrett pudesse ter adquirido as informações do R101 através dos canais normais e o caso apoia fortemente a hipótese da sobrevivência.’ [23].

 

Nos dois casos a seguir, se LAP for a explicação para os fenômenos neles apresentados, as médiuns deveriam ser capazes de adquirir psiquicamente as informações anômalas a partir de mais de uma fonte, isso porque o conteúdo verbalizado na sessão estaria fragmentado, por exemplo, algumas partes dele estariam na mente do assistente enquanto outras nas mentes de pessoas distantes, ou então, gravadas em documentos que aparentemente apenas o falecido conhecia. Sobrevivencialistas argumentam que, em episódios como tais, a hipótese S é mais econômica e, portanto, mais parcimoniosa, afinal todas as informações anômalas poderiam ser adquiridas a partir de uma única fonte, qual seja, a mente ainda ativa de uma pessoa que passou pela transição a qual chamamos morte. Analisaremos profundamente a higidez desse argumento mais a frente, quando analisarmos o poder explanatório de LAP. Os irretocáveis extratos abaixo são tirados de Carter (2012)[24].

 

No primeiro exemplo mencionado por Carter, a médium em questão foi a extraordinária Sra. Piper. O trecho a seguir trata de uma diversidade de casos relativos ao período em que essa médium começou a manifestar um novo controle [“George Pelham”] em substituição ao “Dr. Phinuit”.

 

[...] A Sra. Piper foi ainda levada à Inglaterra para ser testada, onde ela não conhecia ninguém e não poderia ter [ajuda de] comparsas. Como nos Estados Unidos, os assistentes eram geralmente apresentados anonimamente; e a Sra. Piper continuava a obter resultados impressionantes. No entanto, os investigadores não conseguiam decidir se a Sra. Piper estava realmente em contato com pessoas falecidas ou se ela estava apenas colhendo a informação telepaticamente das mentes dos assistentes.

O que se mostrou o ponto da virada para Hodgson foram as assim chamadas comunicações GP. George ‘Pelham’ (um pseudônimo para Pellew) foi um jovem advogado de Boston, intensamente interessado em literatura e filosofia. Como um amigo de Hodgson, os dois haviam discutido a possibilidade da vida após a morte; apesar de GP (Pellew) ser extremamente cético em relação a tal possibilidade, ele prometeu a Hodgson que caso morresse primeiro e se encontrasse ainda vivo, iria fazer o seu melhor para se comunicar.

 Dois anos mais tarde, GP encontrou a morte acidentalmente com 32 anos de idade, devido a uma queda em Nova York, em fevereiro de 1892. Cerca de quatro semanas depois, Hodgson acompanhou um amigo íntimo de GP para uma sessão com a Sra. Piper, com o amigo sendo apresentado sob o falso nome de ‘John Hart’. Com Phinuit [principal controle da médium à época] agindo como intermediário, as mensagens pretensamente vindas de GP foram retransmitidas para Hart. Recorde-se que GP tinha assistido a uma sessão com a Sra. Piper cerca de cinco anos antes, também sob nome falso, e que Hodgson não pensava que a Sra. Piper lembrava de o ter visto. Mas, de qualquer forma, durante a sessão o nome George Pellew foi dado por completo, o assistente foi reconhecido por seu nome real, e as comunicações referiram-se a incidentes que eram desconhecidos tanto para o assistente quanto para Hodgson.

Um desses incidentes desconhecidos relacionava-se a James e Mary Howard, os quais foram mencionados pelo nome, juntamente com o [nome] da filha deles, Katherine. A mensagem era ‘Diga a ela, ela saberá. Eu resolveria as questões, Katharine’. Essas palavras não significaram nada para Hodgson ou para o assistente, mas quando ‘Hart’ contou a James Howard uma parte da sessão no dia seguinte, aquelas palavras o impressionaram mais do que qualquer outra coisa. GP, quando teve sua última estada com os Howards, manteve frequentes diálogos com Katherine (uma garota de 15 anos) sobre certos problemas filosóficos. Descobriu-se que GP havia dito à garota que ele iria resolver os problemas e deixá-la saber, usando quase as mesmas exatas palavras comunicadas na sessão.

Três semanas depois, uma sessão foi organizada com os Howards, sem seus nomes serem fornecidos. Phinuit inicialmente disse algumas palavras; então, de repente, apareceu GP para controlar diretamente a voz da Sra. Piper. Este novo controle durou quase o tempo todo da sessão, cuja natureza Hodgson descreve.

As declarações foram intimamente pessoais e características. Amigos em comum foram designados pelo nome, consultas foram feitas sobre assuntos particulares, e os Howards, que não estavam predispostos a tomar qualquer interesse na pesquisa psíquica, mas que tinham sido induzidos por parte do Sr. Hart a terem uma sessão com a Sra. Piper, ficaram profundamente impressionados com a sensação de que eles estavam, na verdade, mantendo uma conversa com a personalidade do amigo a quem tinham conhecido por tantos anos’ [...].

Nas sessões posteriores, GP às vezes se comunicava diretamente através da voz da Sra. Piper e em outros momentos por meio da escrita automática [psicografia], com a última ficando cada vez mais comum com o passar do tempo. A carreira de GP como um comunicador "drop-in" persistiu até 1897, e dos 150 assistentes que foram apresentados a GP durante esse tempo, ele reconheceu pelo nome 29 dos [assistentes] que George Pellew tinha conhecido em vida (a única exceção foi uma jovem que ainda era uma criança quando Pellew a vira pela última vez). Ele conversou com cada um desses indivíduos na maneira apropriada, e mostrou um conhecimento íntimo de seus supostos relacionamentos passados com eles. Como escreve Hodgson, em cada caso, ‘o reconhecimento foi claro e completo, além de acompanhado por uma apreciação das relações que subsistiam entre GP vivo e os assistentes’. E não houve um único caso de falso reconhecimento; ou seja, GP nunca, por nenhuma vez sequer, saudou qualquer um dos 120 que o Pellew vivo não tinha conhecido. Hodgson acrescenta:

a manifestação contínua dessa personalidade - tão diferente de Phinuit ou dos outros comunicadores -com seu próprio reservatório de memórias, com a sua pronta apreciação de qualquer referência a amigos de GP, com o seu ‘dar e receber’ em pequenas conversas incidentais comigo mesmo, tem amplamente ajudado na produção de uma convicção da presença real da personalidade GP, o que seria totalmente impossível de transmitir por qualquer mera enumeração de declarações verificáveis’.

 

No segundo exemplo de Carter, a médium foi a igualmente excepcional Sra. Leonard. Neste episódio, a assistente, Sra. Talbot, depois de receber algum material bem sugestivo de que seu falecido marido estava se comunicando através do controle “Feda”, foi novamente surpreendida por algumas mensagens sobre um velho livro de notas. Estas mensagens incialmente pareciam tolices, mas depois revelaram-se de valor inestimável para fortalecer a interpretação da sobrevivência post-mortem de seu marido.

 

Em 19 de março de 1917, a Sra. Leonard realizou uma sessão para uma viúva, Sra. Hugh Talbot. De acordo com a Sra. Talbot, ‘naquele momento, Sra. Leonard não sabia o meu nome e nem meu endereço, e nem eu já tinha ido a ela ou a qualquer outro médium antes em minha vida’.

Durante a primeira parte da sessão, nada de extraordinário aconteceu. Houve apenas uma 'miscelânea de descrições' sobre várias pessoas. Mas, de repente, de acordo com a Sra. Talbot:

Feda [principal controle da Sra. Leonard] deu uma descrição muito correta da aparência pessoal do meu marido, e a partir daí somente ele parecia falar (através dela, é claro) e um diálogo muito extraordinário se seguiu. Evidentemente, ele estava tentando, por todos os meios ao seu alcance, provar sua identidade para mim e para me mostrar que realmente era ele mesmo. . . Tudo o que ele disse, ou melhor, o que Feda disse para ele, era claro e lúcido. Os incidentes do passado, conhecidos somente por ele e por mim foram mencionados, pertences triviais por si próprios, mas que para ele era de interesse específico e pessoal, e os quais eu conhecia, foram minuciosa e corretamente descritos, e fui indagada se eu ainda os possuía.

Sra. Talbot também foi perguntada várias vezes se ela acreditava que era o falecido Sr. Talbot quem estava se comunicando.

Feda ficava dizendo: ‘Você acredita, ele quer que você saiba que realmente é ele mesmo’. Eu disse que eu não podia ter certeza, mas eu pensei que devesse ser verdade...

De repente, Feda começou uma cansativa descrição de um livro, ela disse que era de couro e escuro, e tentou me mostrar o tamanho. Sra. Leonard, com as mãos, mostrou um comprimento de oito a dez polegadas e quatro ou cinco de largura. Ela [Feda] disse: ‘Ele não é exatamente um livro, não é impresso, Feda não chamaria isso de um livro, isso tinha escritos dentro’.

Passou um bom tempo antes que eu pudesse ligar essa descrição com alguma coisa, mas finalmente me lembrei de um livro de notas de couro vermelho do meu marido, que eu acredito que ele o chamava de livro de registro, e eu perguntei: um livro de registro?' Feda parecia confusa com isso e em não saber o que era um livro de registo, e repetiu a palavra, uma ou duas vezes, e depois disse: 'Sim, sim, ele diz que poderia ser um livro de registro'. Eu então disse: um livro vermelho?' Neste ponto, houve hesitação, eles achavam que possivelmente era, apesar de ele pensar que era mais escuro.

A resposta era incerta, e Feda novamente começou uma descrição cansativa, acrescentando que era para eu, após a conversa, procurar na página doze, por algo escrito nela, que seria bastante interessante. Então ela disse: ‘Ele não tem certeza de que isso está na página doze, poderia estar na treze, é muito extenso, mas ele quer que você procure e tente encontrá-lo. Seria de interesse de ele saber se este trecho está ali'.

Nada disso interessava a Sra. Talbot. Embora ela pensasse ter lembrado do livro, ela não tinha certeza se ainda o possuía, e, de qualquer modo, a questão inteira parecia sem propósito para ela. Ela respondeu: 'bem indefinidamente' que iria ver se poderia encontrar o livro, mas isso não satisfez o comunicador que estava aparentemente passando as mensagens através de Feda.

Ela começou tudo de novo, tornando-se cada vez mais insistente e passou a dizer: 'Ele não tem certeza da cor, ele não sabe. Há dois livros, você saberá qual ele quer dizer em razão de um diagrama de idiomas na frente. . . idiomas Indo-Europeu, Ariano, semita e outros' . . . Isso soou tolices para mim.

Pensando que a médium estava cansada e falando bobagem, a Sra. Talbot ficou feliz quando a sessão chegou ao fim. Durante o jantar naquela noite, ela mencionou sobre a sessão para sua irmã e sobrinha, e 'depois de contar a minha irmã e sobrinha todas as coisas que considerei interessantes ditas no início, mencionei que no final a médium começou a falar um monte de tolices sobre um livro, e que me pedia para olhar na página doze ou treze a fim de encontrar algo interessante’. Depois do jantar, sua irmã e sobrinha imploraram a ela para procurar pelo livro mais uma vez. Embora a Sra. Talbot quisesse esperar até o dia seguinte, ela finalmente cedeu e, depois de um pouco de procura encontraram dois velhos livros de notas do marido, nos fundos de uma estante superior.

Sra. Talbot conta-nos no seu testemunho escrito que ela nunca tinha aberto quaisquer dos livros de notas.

Um deles, de couro preto e gasto, correspondia em tamanho com a descrição dada, e eu distraidamente o abri, perguntando em minha mente se o que eu estava procurando tinham sido destruído ou perdido. Para meu espanto, meus olhos caíram sobre as palavras: ‘Tabela de idiomas semitas ou siro-árabes’.

Ainda mais surpreendente foi o que ela encontrou na página treze. Nesta página, o Sr. Talbot tinha transcrito, há algum tempo em sua vida, a seguinte passagem de um livro chamado Post Mortem, publicado anonimamente em 1881:

Descobri por certos sussurros os quais supostamente eu não conseguia ouvir e por certos olhares de curiosidade ou comiseração os quais supostamente eu era incapaz de ver, que eu estava perto da morte...

Presentemente, minha mente começou a se estender, não só sobre a felicidade que estava por vir, mas acerca da felicidade que eu estava desfrutando. Eu vi formas há muito esquecidas, amigos de infância, colegas de escola, companheiros da minha juventude e da minha velhice, e todos juntos sorriram para mim. Eles não sorriram por compaixão, que eu não mais sentia precisar, mas com aquele tipo de gentileza que é trocada por pessoas as quais estão igualmente felizes. Eu vi minha mãe, pai e irmãs, todos os quais eu havia sobrevivido. Eles não falaram, mas ainda assim me transmitiram seu inalterado e inalterável afeto. No momento em que eles apareceram, fiz um esforço para perceber a minha situação física ... ou seja, eu me esforçava para conectar minha alma com o corpo que estava deitado na cama de minha casa. . . o esforço falhou. Eu estava morto.

Havia também ‘um diagrama de idiomas’ na parte da frente, combinando com a descrição dada através de Feda. As irmã e sobrinha da Sra. Talbot corroboraram as declarações da Sra. Talbot, e também forneceram testemunhos escritos e assinados para os registros da SPR [Society for Psychical Research, em Londres].

 

Além de comportamentos e maneirismos típicos da pessoa falecida, personalidades comunicantes podem exibir habilidades não-idiossincráticas e que são correspondentes àquelas que o falecido tinha em vida. Por exemplo, comunicadores podem falar num idioma aparentemente desconhecido do médium, mas fluente por parte da personalidade falecida (ex., o caso tipo possessão de Íris Farczády[25]). No caso Robert Rollans/Géza Maróczy (1985), o primeiro, médium psicógrafo, forneceu material evidencial sugestivo da sobrevivência de Maróczy, mestre xadrezista falecido em 1951, além de exibir habilidades em xadrez semelhantes às do falecido (Eisenbeiss e Hassler, 2006[26]). Rollans, sustentando seguir os comandos de Maróczy, travou uma disputa de xadrez que durou sete anos e oito meses com o russo Viktor Korchnoi, 3º no ranking mundial. O próprio Korchnoi reconheceu que a disputa foi travada no nível de grão-mestre e que seu desafiante jogava num estilo “antiquado”, o que converge com a época de Maróczy, nas décadas de 20 e 30. Continuando no assunto sobre habilidades, podemos ainda mencionar reportes de personalidades mediúnicas que reproduzem destrezas literárias, pictóricas e musicais atribuídas a um falecido (ex., o caso Chico Xavier/Humberto de Campos (Barbosa, 2005)[27] e muitos exemplos da mediunidade de Jozef Rulof e Rosemary Brown).

 

Fecho este ponto ciente de que algumas características da mediunidade mental não foram mencionadas. Porém, para os propósitos deste trabalho, penso que o acima explanado mostra-se suficiente, além do que, muitos outros pormenores serão mencionados adiante. Vamos agora observar como as hipóteses rivalizadas argumentam frente à fenomenologia acima apresentada.

 

 

2. Fundamentos da Hipótese da Sobrevivência (S) para os casos de mediunidade (CMs)

 

 

Para CMs serem exemplos de comunicações post-mortem, sobrevivencialistas devem suportar as seguintes assunções:

 

S1: que a mente e o cérebro não tenham uma relação do tipo produtiva, no sentido de que o último seja causa necessária da primeira;

 

S2: que, após a morte, o conjunto das características psicológicas do falecido, especialmente sua cadeia de memórias, caráter e sentido de identidade, não sofra uma modificação simultaneamente radical e inesperada, a fim de que possamos inferir a sobrevivência de sua personalidade e comprovar sua identidade, i.e., que comunicador e falecido são numericamente o mesmo indivíduo;

 

S3: que alguns falecidos tenham interesse, desejo e motivação na comunicação com os vivos;

 

S4: que algumas pessoas falecidas tenham percepção extrassensorial (PES) para que possam se comunicar com o médium, influenciando-o telepaticamente; ou então manipulando seu sistema motor, via psicocinese (PK), a fim de expressar mais informações, além de exibir as habilidades e maneirismos que tinham em vida. Falecidos também devem usar PES para tomar ciência de acontecimentos que ocorreram após a morte ou mesmo cognoscer, por meios telepáticos, os pensamentos do médium, dos assistentes e de seus entes queridos ainda vivos;

 

S5: que a transição da morte provoque um efeito liberador das capacidades psi de uma pessoa, de modo que um sujeito, o qual nunca demonstrou talentos psíquicos quando encarnado, passe a manifestar habilidades psi sub-repticiamente, influenciando intensamente o médium com seus pensamentos ou tomando o comando executivo do corpo biológico via PK;

 

S6: que uma pessoa viva (o médium) tenha uma sensibilidade especial, qualquer que seja sua natureza, para manifestar cognitivamente os efeitos da influência telepática de um falecido ou para lhe ceder transitoriamente o controle corporal.

 

Vamos agora analisar pormenorizadamente cada uma dessas seis hipóteses auxiliares ou pressuposições de S.

 

 

2.1. Comentários a respeitos de S1

 

 

S1: que a mente e o cérebro não tenham uma relação do tipo produtiva, no sentido de que o último seja causa necessária da primeira.

 

A hipótese de a mente ser um subproduto da atividade cerebral é um dos establishments da ciência contemporânea. Porém, tudo o que as observações empíricas provenientes da psicologia, da neurociência, da linguística, da ciência da computação e da inteligência artificial nos conta são correlações entre estados cerebrais e mentais. Mudanças comportamentais, de humor, cognitivas, mnemônicas, e outras modificações na personalidade, subsequentes ou simultâneas a alterações (na estrutura ou no funcionamento) cerebrais, não implicam necessariamente numa redutibilidade causal daqueles estados mentais a estados do cérebro. Esse tipo de relação produtiva é somente uma das inferências do relacionamento mente-cérebro que, por infelicidade, tem sido abraçada dogmaticamente por grande parte da comunidade científica.

 

Como alternativa à hipótese da produção, podemos interpretar as mesmas observações empíricas das ciências cognitivas como exemplos de um cérebro permissivo ou transmissivo da atividade mental. Essa outra inferência dos dados nem de longe é nova, possuindo raízes desde os diálogos de Platão e Hipócrates à filosofia de Emmanuel Kant. O desenvolvimento posterior dessa posição acelerou-se na transição dos séculos XIX/XX, principalmente através do erudito inglês Frederic Myers, além de Ferdinand Schiller, Henri Bergson e William James, que foi o primeiro a expressamente declarar que a consciência poderia ser 'transmitida' pela atividade cerebral, no lugar de produzida.

 

Muitas analogias já foram utilizadas para nos clarificar a ideia da teoria da transmissão, com destaque para aquela de Myers o qual relacionou metaforicamente o interacionismo mente-cérebro a passagem de luz num prisma. Resumidamente a respeito, a psicóloga Emily Kelly descreve com acurácia o entendimento em artigo de 1994 publicado no The Journal of Parapsychology: 

 

[...] A parte de nossa vida mental, que ordinariamente estamos cientes, corresponde somente a um pequeno segmento, visível a olhos nus, do espectro eletromagnético filtrado num prisma, objeto que metaforicamente corresponderia ao cérebro (ou ao sistema nervoso como um todo). Entretanto, exatamente como o espectro eletromagnético se estende bem além daquela porção visível, a consciência humana poderia ir muito além da pequena porção que normalmente estamos cientes. A porção visível – tanto do espectro eletromagnético como do espectro mental – não seria superior nem inferior ao resto, mas simplesmente a porção que, em termos evolucionários, melhor atendeu às necessidades do organismo em seu ambiente imediato. Além disso, a porção visível ou supraliminar não é fixa, mas está em constantes mudanças, expandindo, contraindo-se, não somente durante a vida de um indivíduo, mas também no curso da evolução. Exatamente como a detecção sensória do espectro eletromagnético evoluiu de uma simples irritabilidade a sistemas visuais altamente complexos, então a porção supraliminar do espectro mental evoluiu de simples respostas reflexas do sistema nervoso primitivo aos mais elevados processos cognitivos humanos.[...]. Myers sugeriu que no invisível segmento infravermelho do espectro mental estão aqueles mais antigos e primitivos processos, informações ou comportamentos que, ele insinuou, uma vez foram conscientes (tanto a nível individual como evolucionário), mas são agora inconscientes e automáticos. Correspondendo a pequena porção visível do espectro eletromagnético estão nossa consciência e nossos habituais pensamentos e comportamentos. E, finalmente, no invisível segmento ultravioleta do espectro mental estão aquelas capacidades mentais as quais permanecem para a maioria de nós em estado de latência, porque elas não foram ainda extraídas ou ativadas por processos evolucionariamente adaptativos. Nessa região emergem, à medida que a consciência evolui, os mais novos e altos processos mentais; incluindo os paranormais que ocasionalmente são reportados”. [...] O fato de a consciência ser bem maior tanto em extensão e em habilidade que nós ordinariamente idealizamos sugeriu a Myers que ela é capaz de operar num ambiente mais amplo daquele que presentemente percebemos. A existência de capacidades latentes (por exemplo, o incremento da memória e a telepatia, ou o controle mental sobre sistemas físicos) sugeriu a ele que aquelas capacidades podem em última instância se tornarem mais completamente ativadas e operacionais, seja no curso da evolução ou removendo o mecanismo do filtro do [ou que é o] cérebro, então a consciência iria continuar a se expandir e se tornar ciente de um mais amplo ambiente que sempre existiu, embora indetectável por nossas limitadas capacidades perceptivas.[28] [29]

 

Semelhantemente, o filósofo Ferdinand Schiller, no seu extraordinário Riddles of the Sphinx: A Study in the Philosophy of Humanism, sustenta que a estreita ligação do material e do espiritual nos permite compreender porque o singular processo da Evolução é um desenvolvimento correlacionado de ambos, i.e., do material (ou biológico) e da consciência. Schiller pontua que a organização material cresce em complexidade e poder paralelamente ao desenvolvimento da consciência e que a óbvia inferência para o pensamento comum é que “a organização da matéria é a causa do desenvolvimento da consciência”. Ele aduz, no entanto, que esse reducionismo materialista seria uma falácia hoc ergo propter cum hoc, pois confundiria um paralelismo fundado numa origem comum com dependência causal. Em outras palavras, Schiller – assim como Myers – observa o crescimento da complexidade como uma lei universal da Evolução em que a matéria e a consciência evoluiriam, mas de forma paralela (i.e., sem dependência causal), face a quantidade e a intensidade de relações entre elas, o que geraria uma consciência mais intensa de um lado e uma organização biológica mais complexa, de outro. Daí diz Schiller:

 

Nas menores e mais simples formas de vida, por exemplo, no protoplasma, a consciência é reduzida a um mínimo, e não tem nenhuma organização por assim dizer. O protoplasma tem que fazer todo o seu próprio trabalho; a ameba pega sua comida conscientemente e a digere conscientemente. Quando ela sente, a sua consciência tem de estar toda ali, e no local onde o estímulo está.

Agora vamos supor que aquilo se diferencie e estabeleça uma organização rudimentar, digamos, um estômago. Ele [o protoplasma] já não mais requer a supervisão da digestão de seu alimento em sua própria pessoa e com toda a sua consciência, sendo somente convocado pela estrutura que criou quando algo deu errado, e ele tem uma dispepsia. É uma observação familiar que nós nada sabemos e sentimos sobre o nosso funcionamento corporal até que ele esteja fora de ordem. Enquanto saudáveis, os nossos nervos e a nossa digestão não exigem a atenção de nossa consciência. E a conjectura que pode ser sugerida é que é essa precisamente a razão porque cresceram nervos e um aparelho digestivo. O estabelecimento de um sistema nervoso possibilita a consciência estar concentrada no centro das coisas e silenciosamente receber relatórios e enviar ordens através dos nervos, em vez de percorrer sobre todo o corpo.

Existe, portanto, uma economia considerável de consciência envolvida em cada pedaço de organização material. A razão de ser disso é libertar uma certa quantidade de consciência. Isto quer dizer, a consciência, em vez de estar ligada para baixo no desempenho de funções inferiores e mecânicas, é posta em liberdade para perseguir metas mais elevadas ou para aperfeiçoar a sua execução das menores e, portanto, o total de inteligência é aumentado. Por exemplo, o nosso protoplasma original, quando ele passa a ter um estômago, pode se dedicar a atenção que anteriormente concedia na digestão de seu café da manhã para melhores métodos de captura de seu jantar e, assim, seus descendentes, à medida que aumentam a complexidade e a eficiência das suas máquinas orgânicas, podem subir para a contemplação dos maiores problemas da vida.

 

Pessoalmente, acredito que a teoria da personalidade humana de Frederic Myers, a qual abraça a hipótese de um cérebro transmissivo (no lugar de produtivo), é a mais ousada e abrangente teoria da personalidade que já se teve notícia na história das ciências cognitivas. Estou certo que muitos dos psicólogos e neurocientistas podem discordar disso, especialmente porque as ideias de Myers permanecem negligenciadas pela maioria dos membros da comunidade científica, porém também tenho certeza que alguns vão partilhar dessa posição, especificamente aqueles que estão a par das pesquisas psíquicas de 'borda’, tais como fenômenos psi, mediunidade e experiências místicas e no liminar da morte, entre outras. Digo isso porque a perspectiva da personalidade apresentada por Myers simplesmente é compatível com todos os fatos admitidos pela ciência convencional, mas também elucida fatos adicionais, recalcitrantes à ciência paradigmática, tais como os mencionados por Edward F. Kelly (2000)[30], a saber:

 

a) exemplos da persistência da memória e de estados mentais organizados quando a atividade cerebral estivesse cessada ou severamente prejudicada [como alguns casos de Experiências de Quase Morte (EQMs) sugerem];

b) a própria existência de fenômenos psi;

c) experiências místicas que liberam capacidades mentais superiores, a exemplo do incremento na velocidade de leitura e de habilidades cognitivas, além de incursões psi;

d) experimentos com psicodélicos. A interpretação de Aldous Huxley de tais experiências como resultante de uma suspensão da normal ação de "filtrar" imposta pelo cérebro deveria ser revisada levando em conta informações mais detalhadas sobre os modos fisiológicos da ação de agentes específicos. A cetamina, por exemplo, é um anestésico dissociativo e uma poderosa droga enteógena em doses subanestésicas. Seletivamente rompe o sistema receptor NMDA das camadas corticais superiores, que desempenha um papel importante nas interações tangenciais entre as áreas corticais, e ainda tais interações são extensamente presumidas em fornecer uma base fisiológica normal para as experiências perceptiva e cognitiva organizadas.

e) desordem de múltiplas personalidades e transe mediúnico. Muitos fenômenos incomuns têm sido reportados em tais casos, os quais parecem desafiar as teorias convencionais da função global do cérebro. Por exemplo, em co-consciência uma personalidade ‘B’ pode estar simultaneamente ciente de sua própria experiência e daquela da personalidade A, mas não vice-versa. Semelhantemente, quando um múltiplo está na frente do espelho, diferentes ‘álteres’ personalidades podem simultaneamente ter experiências visuais bastante divergentes, por exemplo, vendo uma jovem loira vs. um velho homem de cabelo negro. No caso ‘Old Stump’, descrito por James, uma personalidade secundária aparentemente não foi afetada por uma enfermidade que produzia delírios na personalidade principal. O transe mediúnico da Sra. Piper (...) ocasionalmente a fazia interagir com três assistentes de uma só vez, falando com um e escrevendo diferentes mensagens para os outros dois usando ambas as mãos, tudo ao mesmo tempo. Tais casos parecem envolver, de modo simultâneo, sistemas importantes do cérebro de maneiras diferentes e potencialmente incompatíveis.

f) sujeitos prodígios, especialmente savantes[31]. De uma perspectiva neurocomputacional, o único caminho para ficar mais lógico e aritmeticamente preciso, desconsiderados elementos individualmente incertos (os neurônios), seria simplesmente usar mais neurônios, e os poucos estudos existentes destes fenômenos fascinantes sugerem que prodígios tampouco devem estar usando todos os neurônios que eles têm, ou fazendo seus cálculos de alguma maneira radicalmente diferente que as nossas.

g) a unidade da experiência consciente. Os ‘sujeitos’ de nossa vida mental, o fato de nossos pensamentos, imagens, memórias, etc. serem experimentados como sendo dirigidos por nós mesmos, operando como agentes unitários, em direção a descrição de eventos externos ou internos, permanece um mistério fundamental apesar das discussões recentes do ‘binding problem.[32]

 

Podemos acrescentar ainda casos de sujeitos com capacidades mentais dentro da média, mas com estruturas anatômicas e funcionais do cérebro bastante comprometidas ou mesmo ausentes (vide os pacientes de Lorber, 1980[33]). Muito mais poderia ser dito aqui, mas o mencionado é suficiente para demonstrar que a teoria da transmissão definitivamente é muito mais do que uma hipótese metafísica.

 

Embora devamos a William James o enunciamento da teoria da transmissão em sua histórica apresentação na Conferência Ingersoll, Human immortality: two supposed objections to the doctrine (1898), foi Frederic Myers quem desenvolveu mais extensamente as bases de uma perspectiva da personalidade humana que demanda sua continuidade além da morte corporal. A percepção de Myers persiste sendo a mais fecunda teoria que não apenas suporta, mas exige a sobrevivência psicológica após a morte física. Simpatizantes com S indubitavelmente deveriam tê-la como ponto de partida, razão pela qual passo a adotá-la como pedra angular a fim de apresentar uma teoria da sobrevivência mais robusta, no lugar de fornecer ao leitor uma visão ingênua como a sustentada por algumas doutrinas e filosofias dogmáticas que me abstenho de mencionar para não desviarmos do foco.

 

Em sua monumental obra de dois volumes, Human Personality and its Survival of a Bodily Death (1903), Myers sistematizou, escorado em inúmeras observações empíricas, que a personalidade humana se estende muito além da consciência ordinária que normalmente estamos cientes. Sua teoria apoia-se em cinco características centrais, conforme sintetizadas pelo filósofo e doutor em psicoterapia Adam Crabtree (2007):

 

(1) fenômenos como psicografia, histeria, mediunidade, sonhos, hipnotismo e inspiração criativa forçam os investigadores a olhar além das explicações fisiológicas já disponíveis e colocam centros de consciência, exteriores a consciência primária (isto é, ao nosso 'eu' ordinário), como as fontes de muitas ações e percepções complexas e automáticas;

(2) esses centros de consciência devem ser considerados, no mínimo nos casos bem desenvolvidos, como personalidades ou eus [selves], sendo fontes inteligentes de pensamentos, sentimentos e ações, com suas próprias cadeias de memória, exibindo coesividade psicológica. Myers assinalava que esses centros não são necessariamente meros estados alternados de consciência, mas podem operar concorrentemente com o eu supraliminar (i.e., nosso eu ordinário, o qual normalmente tomamos como a nossa identidade pessoal) e com outros eus os quais também funcionam subliminarmente;

(3) os centros de consciência subliminares algumas vezes mostram ciência uns dos outros. Myers também escreveu sobre um tipo de inclusividade na qual centros subliminares podem em alguns momentos estar cientes dos pensamentos e ações da consciência primária ou supraliminar, como também o ambiente na qual a consciência supraliminar existe. Essa ciência, porém, é ordinariamente não recíproca;

(4) Myers reconheceu que existe uma forte ligação entre automatismos e capacidades psi. Começando com seu estudo sobre psicografias nos anos de 1880, ele demonstrou que as informações produzidas pelas consciências comunicadoras eram algumas vezes verídicas e não poderiam ser explicadas por conhecimentos adquiridos através dos sentidos ou outros meios normais. Evidências de faculdades supernormais foram descobertas por toda a extensão dos automatismos sensorial (tais como as experiências de aparições de pessoas vivas, mortas e moribundas e o transe mediúnico) e motor (como a psicografia) que ele estudou;

(5) ele depois hipotetizou um "Eu" ou Self Subliminar que abrange tanto as consciências supraliminar e subliminares, estando ciente de todas as atividades que ocorrem em cada uma delas. Esse Eu tem raízes num ambiente transcendental de algum tipo, responsável por suas capacidades supernormais. Ele provê a unidade abrangente da psique, reconciliando seus aspectos "colonial" versus "unitário", sobrevivendo ao choque da morte física.

 

Crabtree considera as características de (1) a (4) bem estabilizadas empiricamente. De fato, estudos sobre automatismo revelam ações inteligentes e com propósitos bem definidos que escapam a nossa percepção consciente, evidenciando que abaixo de nossa consciência ordinária múltiplos centros de consciência funcionam concorrentemente sem que tenhamos qualquer notícia sobre sua operacionalidade ou domínio sobre eles. Myers denominava isso de o aspecto 'colonial' da psique. A tal respeito, o ponto de vista de Myers encontra coro com grandes mentes da psicologia, a exemplo de William James, Morton Prince, Thomas Mitchell e William McDougall.

 

Ao contrário da concepção freudiana que tomava a consciência como algo unitário e rejeitava a noção de múltiplos centros de consciência, Myers desenvolveu sua teoria à luz dos muitos ‘eus’ que habitam um indivíduo, partindo de uma variabilidade de casos sobre automatismos, desde processos claramente patológicos (tal como a histeria, obsessão ou ideia fixa e distúrbios dissociativos de identidade) a exemplos de fenômenos automáticos que representam – segundo ele – “um aperfeiçoamento do estado normal, um estado supranormal, uma fase nova, que se manifesta no decurso da evolução[34]. Ele relatou muitos casos acerca dessas manifestações superiores que escapam do limiar de consciência. Por exemplo, ele via a inspiração genial, tal como acontece em algumas composições artísticas incontestavelmente sublimes e na prodigiosidade de raciocínio não-lógico (como alguns dotados calculadores mentais), como ideias cuja elaboração “a consciência do sujeito não teve participação, mas que se formaram sozinhas, isto é, independente da vontade, nas regiões profundas [do Ser]” (idem).

 

Myers assim argumentava que os centros subliminares não são qualitativamente superiores ou inferiores ao ‘eu’ supraliminar, possuindo o estrato mental abaixo da consciência ordinária uma variedade enorme de material psicológico, alguns notavelmente sublimes, outros representativos de uma degenerescência da personalidade, além da existência daqueles considerados intermediários, nos quais ele classificou os sonhos.

 

Em algumas ocasiões esses centros subliminares, dotados de percepção, inteligência e propósito se desenvolvem, agregando outros elementos da vida psicológica do sujeito, tais como sentimentos, e uma própria cadeia de memórias, de uma modo que uma personalidade nova, secundária, com um caráter bem definido passa a reivindicar o controle corporal, a exemplo dos casos de distúrbios dissociativos de identidade (MPD/DID).

 

Esses centros subliminares, desenvolvidos a ponto de constituírem uma personalidade autônoma ou não, muitas vezes funcionam como facilitadores para a liberação de habilidades e capacidades psíquicas latentes, inclusive a psi, tal como diversos casos espontâneos e experiências as quais relacionam a psi com estados alterados de consciência demonstram (por exemplo, estudos controlados que atingiram correlações positivas entre o funcionamento psi e estados alterados de consciência induzidos através da hipnose, da privação sensória ou ganzfeld, da meditação e relaxamento progressivo, e de estados hipnagógicos e dos sonhos[35]).

 

Embora seja uma característica contingente de DID, em muitos casos de múltiplos (e também de sujeitos hipnóticos) existe uma relação hierárquica entre as personalidades secundárias e/ou entre personalidades secundárias e a personalidade primária ou original. Assim a personalidade secundária ‘B’ pode ter ciência dos pensamentos e das ações da personalidade original ‘A’, mas não ao contrário. Uma personalidade ‘C’ ainda é capaz de emergir e estar ciente de tudo o que acontece com ‘B’ e ‘A’, e ambas ignorarem o surgimento de ‘C’. Essa característica hierárquica entre alguns "eus" de um sujeito sugeriu a Myers que na base da psique humana existe uma individualidade final, um “Eu” o qual representa a unidade total de um indivíduo. Ele então a chamou de o ‘Eu Subliminar’ [em maiúsculo], reservatório de todas as manifestações psicológicas de uma pessoa e as quais podem se agregar em torno de uma cadeia de memória, numa incomensurável quantidade de arranjos, permitindo uma quantidade quase infinita de padrões de personalidade, da mesma forma que um caleidoscópio pode ser balançado e dar origem a inúmeros desenhos geométricos. A sua personalidade ordinária (i.e., aquilo que você reconhece como sendo 'você') é apenas uma das combinações desses incontáveis elementos psicológicos, a qual certamente surgiu em razão da seleção natural (e social). Além disso, a personalidade humana é dinâmica, estabelecendo com frequência novos - e desfazendo antigos - arranjos com os variados elementos psicológicos da psique, tais como sentimentos, percepções, propósitos, ideias, pensamentos, cadeia de memórias, etc.

 

Finalmente, com a dissolução corporal, haveria a sobrevivência daquele Eu Subliminar, mas paralelamente ocorreria a aniquilação da personalidade ordinária a qual normalmente nos identificamos. Alguns sobrevivencialistas podem exclamar, dizendo que esse não é o tipo de teoria da sobrevivência a qual desejam dar felicitações, afinal, o que importa – dizem eles – “é que as ‘minhas’ memórias, emoções e sentimentos, caráter e sentido de identidade sejam preservados após a morte”. Bem, posso dizer que essa é uma linha de pensamento bastante ingênua e muito distante do real significado da teoria de Myers. Essa preocupação de sobrevivencialistas será agora enfrentada na segunda hipótese auxiliar de S, que levanta questões acerca da comprovação da identidade pessoal dos comunicadores e se é possível esperar que, após o choque da morte, possamos experimentar um estado de consciência representativo de um continnum do nosso estado de consciência ordinário, muito embora, quanto mais vivenciamos uma existência post-mortem, mais chances temos de nos afundar num estado alternativo de consciência, ainda que isso ocorra gradativamente.

 

 

2.2. Comentários a respeitos de S2

 

 

S2: que, após a morte, o conjunto das características psicológicas do falecido, especialmente sua cadeia de memórias, caráter e sentido de identidade, não sofra uma modificação simultaneamente radical e inesperada, a fim de que possamos inferir a sobrevivência de sua personalidade e comprovar sua identidade, i.e., que comunicador e falecido são numericamente o mesmo indivíduo.

 

Aqui apresentamos duas questões que precisam ser de antemão resolvidas para a validade de S. Uma delas procura saber se é possível realizarmos um julgamento de identidade de modo que pudéssemos satisfatoriamente combinar a personalidade do comunicador com a de alguém que um dia já vivera aqui na Terra. Se respondermos positivamente, então temos passe livre para avançarmos sobre as demais discussões acerca da sobrevivência da personalidade humana após a morte corporal. A resposta negativa, por outro lado, sequer permite que o assunto da sobrevivência pessoal seja posto em discussão. Chamamos isso de “o problema da identificação post-mortem”. A outra questão nos faz debater a respeito do impacto da morte sobre as características psicológicas de uma pessoa até então corporalmente viva. Caso esse impacto provoque um ‘estado alterado de consciência’ capaz de imediatamente dissolver a cadeia de memórias e o caráter da personalidade ordinária ou comum, ainda que algo psíquico sobreviva, não estamos mais falando de sobrevivência 'pessoal'. Vamos batizar isso de o problema da dissolução da personalidade ordinária.

 

 

2.2.1. O problema da identificação post-mortem

 

 

Vamos supor que você tenha feito contato com um espírito o qual alega ter sido na vida corpórea o seu grande amigo ‘Pedro’, recém-falecido. Sobre que bases você pode ter certeza que aquele espírito, de fato, foi a pessoa ‘Pedro’ a quem você conhecia? Do mesmo modo, imagine que você faleceu e após a morte recebe algumas impressões telepáticas provindas de outro espírito o qual alega ter sido seu avô durante a vida física. Como você pode ter certeza que é seu avô, e não um espírito enganador? Lembre-se, após a morte, perdemos o nosso corpo com todas as características as quais pudessem nos fazer reconhecíveis, bem como reconhecer os outros. Como você saberia que aquelas influências telepáticas não vêm de um vigarista?

 

Tais indagações tocam numa das questões filosóficas mais intricadas de todos os tempos: o problema de se estabelecer uma base lógica para julgamentos de identidade. Em sua excepcional obra Philosophy and the Belief in a Life After Death (1995), o filósofo R. W. K. Paterson desenvolve com muita acuidade o assunto. Vamos agora resumir alguns pontos desse autor para os propósitos deste trabalho.

 

Paterson divide a questão da identidade post-mortem em problemas ontológico e epistemológico. O primeiro procura saber o que faz um indivíduo único e o quanto ele pode mudar e se assemelhar a outros indivíduos sem perder sua distinção dos demais. O segundo preocupa-se em descobrir um critério satisfatório para conseguirmos fazer julgamentos de identidade.

 

Sobre o problema ontológico, Paterson inicia elucidando que o conceito de identidade é compatível com mudanças, mas não mudanças muito drásticas e repentinas. Imagine o que quer que seja chamado ‘A’ – exemplifica ele. ‘A’ tem cinco características discerníveis (incluindo sua localização espacial). No tempo t1, ‘A’ tem as características a b c d e; em t2, ‘A’ tem as características a b c d f; em t3 a b c f g; em t4 a b f g h; em t5 a f g h i. Paterson assim indaga, ‘A’ ainda existe em t5? Ele então diz que a resposta irá depender se estamos trabalhando com o conceito de identidade absoluta ou de identidade relativa. Sob as bases do primeiro, ‘A’ definitivamente deixou de existir em t5. Porém, alguém pode considerar que ‘A’ não é algo constante, adstrito a uma característica [no caso, (a)] ou a um conjunto fechado de características (a b c d e), mas sim algo de características fluídas, o que, no exemplo, cobre todas as combinações de características listadas nos diferentes tempos e poderia cobrir muitas outras características não listadas, bastando que as combinações fossem suficientemente relacionadas. Com isso Paterson deseja mostrar ao leitor que tanto as pequenas mudanças que ocorrem repentinamente quanto as vastas mudanças que ocorrem gradualmente podem ser compatíveis, pelo conceito de identidade relativa, com o objeto qualitativamente-alterado (‘A’ em t5) como sendo numericamente o único e o mesmo objeto de antes (‘A’ em t1).

 

Além disso, Paterson adverte que, no decorrer do tempo, a maioria dos objetos (inclusive pessoas) muda consideravelmente e, com frequência, muda de forma completa, existindo, assim, muito mais uso para o conceito de identidade relativa do que para o de identidade estrita ou absoluta.

 

No que diz respeito a questão epistemológica, o autor depois passa a revisar as principais tentativas para estabilizar os fundamentos lógicos para um julgamento satisfatório da identidade de uma pessoa, classificando-os em três vertentes de características, a saber: a) físicas (o corpo, em sua totalidade; o cérebro; a constituição genética e o percurso espaço-temporal); b) psicológicas (a memória e o caráter); e c) transcendentais (a alma e o ‘Eu’). Por motivos óbvios, apenas (a) e (b) são bases empíricas para juízos de identidade, pelo menos enquanto estivermos "do lado de cá"! Por essa razão nossa análise ficará limitada a elas duas.

 

Pois bem, desde logo é importante destacar que nenhuma das características acima é um critério necessário para a avaliação da identidade pessoal. Por exemplo, o corpo (a.1), em sua totalidade (especialmente as características faciais), é a evidência mais convincente de identidade no caso de pessoas vivas, mas ainda assim uma pessoa continua sendo a mesma, apesar de seu corpo sofrer muitas mudanças radicais, da infância até a velhice. De fato, tanto sua aparência quanto sua composição atuais são radicalmente diferentes de quando era recém-nascido. Ademais, pessoas ainda poderiam sofrer acidentes com danos estéticos avançados, receber próteses e serem transplantadas, mas ainda assim continuariam a ser numericamente o mesmo indivíduo.

 

No caso do cérebro (a.2), o debate mais recente sobre sua relação com a identidade pessoal lança discussões enigmáticas, por exemplo, se o cérebro de uma pessoa fosse transplantado para o corpo de outra, as memórias, o caráter e as habilidades do doador acompanhariam o cérebro? E se o cérebro fosse dividido e diferentes partes dele fossem transplantadas para vários corpos? Cada corpo iria receber uma parcela das memórias, características e habilidades do doador? Como nós faríamos julgamentos de identidade sobre isso? Paterson então chama atenção para o que já sabemos, ou seja, que interferências massivas na integridade de nossos cérebros produzem massivas alterações mentais, porém, essas alterações mentais são contingentes, e não consequências necessárias da interferência física. Além disso, Paterson argumenta que, se nós rejeitamos a identificação de uma pessoa com o corpo, na sua totalidade, também devemos rejeitar identificá-la com qualquer parte dele, incluindo o cérebro.

 

Já na hipótese da constituição genética (a.3) ser um critério necessário para juízos de identificação, basta mencionar que todas as pessoas têm características significantes as quais não são herdadas, mas adquiridas como resultado da experiência de vida. Além do mais, gêmeos idênticos são indivíduos distintos, apesar de possuírem qualitativamente genes idênticos.

 

Quanto ao percurso espaço-temporal (a.4), também é um fato contingente, e não necessário para a identidade pessoal. Podemos facilmente imaginar alguém desaparecer de um lugar e reaparecer em outro sem deixar de ser ele mesmo (como Paterson lembra, físicos quânticos já argumentam que isso acontece com partículas). Além disso, nós não seguimos todas as posições espaço-temporais das outras pessoas para termos certeza que estamos lidando com elas, de modo que essa característica não é um critério utilizado por nós no cotidiano, não existindo, portanto, o menor sentido em exigi-la para os casos de identificação post-mortem.

 

Sobre os elementos psicológicos, Paterson argumenta que a memória (b.1) também não pode ser um critério necessário para o julgamento de identidade, porque existem muitas experiências as quais somos incapazes de lembrar e, paradoxalmente, casos em que parecemos recordar de algo que na realidade nunca vivenciamos.

 

Já o caráter (b.2), i.e., aquele conjunto de hábitos, gostos, crenças, sentimentos, valores, atitudes e habilidades que torna o comportamento de um indivíduo comparativamente estável e previsível, fazendo-o um objeto de interesse e afeição (ou indiferença ou antipatia) para aqueles que o cercam, igualmente não merece melhor sorte. Paterson destaca que podem existir muitas pessoas com caráter similar, além de ser possível que existam duas pessoas com caráter inteiramente combinado. Para piorar, os hábitos e gostos das pessoas podem ser alterados; elas podem abraçar diferentes crenças e adotar diferentes valores no decorrer do tempo; e suas habilidades podem com o tempo atrofiar e serem substituídas por habilidades completamente novas.

 

Paterson escreve muitos outros argumentos para rejeitar cada uma dessas características (físicas e psicológicas) como critérios necessários e suficientes para juízos de identidade; em outras palavras, todas elas são contingentes. Mas, para encurtamos a história, o ponto que desejo destacar é o de que pessoas são, acima de tudo, marcadas por características frágeis e flutuantes e, por essa razão, temos que nos contentar com um conceito relativo de identidade (que permite mudanças (a) lentas e repentinas ou (b) vastas e graduais). Claro, podemos aumentar a segurança na identificação ao combinarmos todas as características acima e, de fato, é isso que fazemos habitualmente sem qualquer esforço. É por tal razão que identificar pessoas vivas é bem mais fácil do que confirmar a identidade de um espírito que se comunica através de um médium, afinal [nós, vivos] temos características adicionais (as físicas) para aumentar a segurança de nosso julgamento. Porém, em muitas ocasiões do cotidiano fazemos juízos de identidade automaticamente e de modo bem natural tão somente com base nas características psicológicas de um indivíduo. Por exemplo, nas correspondências epistolares e eletrônicas e nas conversas telefônicas você trata com a pessoa anunciada tão somente com base nas memórias (ou seja, nas informações que ela partilha com você e que lhe sugerem ser quem diz) e no caráter dela (hábitos de escrita, coloquialismo de linguagem ou tom de voz). Em tais casos, há um juízo de identidade, a despeito de você não ter acesso ao corpo (especificamente a aparência) do remetente da missiva ou do interlocutor.

 

Em What Would Constitute Conclusive Evidence of Survival After Death?[36] (1961), o falecido e renomado filósofo Curt. J. Ducasse faz apropriado paralelo entre a identificação de pessoas vivas (com base somente em elementos psicológicos) e mortas que se manifestam através de médiuns. Vejamos:

 

No curso de uma conferência realizada pelo autor [Ducasse] alguns anos atrás numa reunião da American Society for Psychical Research, o público foi convidado a juntar-se na seguinte experiência. Vamos supor que eles foram informados que um amigo nosso, John Doe, estava a bordo de um avião que colidiu no oceano e que nenhum sobrevivente foi encontrado; porém, algum tempo depois, nossos telefones tocam e (a) uma voz a qual reconhecemos como John Doe é ouvida e uma conversação com ele nos convence que o locutor seja realmente John Doe. Ou alternativamente, vamos supor (b) que a voz escutada não é a de John Doe, mas sim a de alguma outra pessoa que aparentemente repassa as palavras dele para nós e vice-versa; e que o diálogo, portanto, nos convence de que a pessoa com quem estamos conversando através daquele intermediário é John Doe.

A questão pedida ao público a considerar-se foi, qual o tipo, em um ou outro caso, do conteúdo daquele diálogo que nos faria considerar como certo ou altamente provável que nosso interlocutor realmente fosse John Doe?

Obviamente, as situações imaginadas (a) e (b) são, ao todo, noções básicas, análogas aos casos em que uma pessoa está conversando com o pretenso espírito sobrevivente de um amigo falecido que no caso (a) 'controla' temporariamente, pelo menos, partes do corpo do médium, isto é, usa os seus órgãos vocais e audíveis ou escreve à mão; ou então que, no caso (b), usa o médium apenas como intermediário, isto é, 'fala' com ele telepaticamente e 'escuta', também telepaticamente, o que o médium ouve quando nós falamos.

Desse modo, como os casos de John Doe e aquele do diálogo através de um médium são completamente análogos, o tipo especial do conteúdo do diálogo que seria adequado para provar ou fazer positivamente provável que John Doe tenha sobrevivido ao impacto seria igualmente adequado para provar ou fazer positivamente provável que a mente de nosso amigo falecido sobreviveu à morte de seu corpo.        

 

Mas, factualmente, considerando que os comunicadores são quem alegam ter sido, quais evidências de identidade eles nos fornecem através dos médiuns? Bem, especialmente pela mediunidade de transe, interessantes pistas de identificação podem ser apresentadas e que, quando combinadas, dão excelente margem de certeza no julgamento de identidade. Ainda que o comunicador seja uma fase ou elemento da vida psicológica do médium, com tais pistas podemos, de fato, identificar qual falecido a personalidade secundária está representando.

 

Assim, é frequente, por exemplo, que as informações comunicadas pelo médium venham do ponto de vista do morto, desse modo poderíamos dizer que são as memórias do desencarnado (especialmente aquelas partilhadas com seus parentes e conhecidos vivos) a característica que habitualmente mais se presta a provar a identidade post-mortem. Além disso, médiuns não raro exibem alguns elementos do caráter do falecido. Nos melhores momentos, o caráter inteiro parece se manifestar, o que contribui massivamente para um juízo de identidade. Médiuns de transe também têm uma faculdade clarividente e em muitos casos eles descrevem alguns detalhes da aparência corporal a qual o pretenso comunicador tinha no último estágio da vida física. 

 

A par disso tudo, podemos resumir os seguintes pontos sobre a identificação de pessoas falecidas:

 

a)      Devemos nos satisfazer com um conceito relativo de identidade (tanto para coisas quanto para pessoas vivas ou mortas), de modo a permitir que um indivíduo permaneça único e numericamente o mesmo através do tempo, a despeito de constantes modificações em suas características;

 

b)      Essas modificações podem ser radicais, desde que ocorram gradualmente no tempo e que permaneça havendo uma relação significativa nas combinações de suas características;

 

c)       Do ponto de vista lógico, não existe uma característica humana necessária e suficiente para julgamentos de identidade, de modo que o conceito de identidade pessoal é uma matéria de grau, e não de certo ou errado;

 

 

d)      Em razão de (c), julgamentos de identidade com base somente em elementos psicológicos são perfeitamente viáveis, o que é feito por nós habitualmente em determinadas ocasiões de nosso dia-a-dia;

 

e)       Como consequência de (d), devemos também admitir a possibilidade de juízos razoavelmente seguros de identificação post-mortem efetuados tão somente com suporte nas características psicológicas do falecido, de modo que seria razoavelmente aceitável concluir, a depender das evidências de um caso, que o comunicador e o falecido sejam numericamente o mesmo indivíduo.

 

 

2.2.2. O problema da dissolução da personalidade ordinária

 

 

Já mencionamos que a personalidade ordinária é apenas uma das combinações dos incontáveis elementos psicológicos que povoam a psique, unidos de uma forma razoavelmente estável por cadeias de memória; a nossa personalidade comum reflete um padrão como resposta as influências ambientais (incluindo de nossos próprios corpos físicos) na luta para nossa autopreservação terrena. Esse padrão o qual consideramos como o nosso ‘normal estado de consciência’ é apenas um dos quase infinitos padrões de personalidade que poderiam ser modulados, porém, em face da seleção natural imposta pelo meio ambiente no qual estamos inseridos, além das influências interoceptivas de nossos próprios corpos físicos, esse ‘estado normal’ foi aquele que simplesmente prevaleceu. De modo semelhante, o psicólogo Charles Tart (1997)[37] comenta sobre essa característica semi-arbitrária de nosso estado ordinário de consciência:

 

Durante o nosso crescimento e o nosso processo de integração à cultura, nós desenvolvemos um número muito grande de hábitos: modos rotineiros de perceber, de pensar, de sentir e de agir. Esses hábitos funcionam automaticamente em nosso meio ambiente ordinário de modo a constituir um sistema – o padrão a que damos o nome de ‘consciência ordinária’ – que é estabilizado, mantendo automaticamente sua integridade através de circunstâncias variáveis. Esquecendo o trabalho que nos custou, quando crianças, a construção desse sistema, e a relatividade cultural e a arbitrariedade de grande parte do mesmo, nós tomamos por certo esse sistema e não colocamos em dúvida o caráter ‘ordinário’ ou ‘normal’ dessa consciência.

 

Tart argumenta que alguns estados alterados de consciência (tal como o sonho, estados hipnagógicos, o transe, os decorrentes de abalos emocionais e os induzidos por práticas de relaxamento profundo, isolamento sensorial, meditação, hipnóticos, etc.) podem abrir as portas para outros aspectos da realidade não acessíveis pelo nosso estado “normal” de consciência. Sustenta, assim, que alguns conhecimentos são específicos-de-estado, somente acessíveis se estivermos num determinado estado de consciência. Propõe então que, para compreender o que aconteceria com nossa consciência após a morte, deveríamos investigar mais o que acontece ao funcionamento mental em vida quando nossa capacidade de perceber o corpo e o ambiente o qual nos cerca é severamente reduzida ou temporariamente eliminada, tal como nos sonhos, nos estudos de privação sensória e na intoxicação cetamínica. Tart ainda nos lembra que,

 

[...]Em nosso estado ordinário de consciência, teremos nossa personalidade ordinária. No entanto, se nosso estado de consciência for drasticamente alterado o mesmo acontecerá com nossa personalidade. E se o estado post-mortem for particularmente favorável ao aparecimento de estados alterados, neste caso, mesmo se alguma coisa sobreviver após à morte, não será provavelmente a nossa personalidade ordinária, nosso sentido familiar do ‘Eu’ (idem).

 

Desse forma, se nosso estado de consciência post-mortem realmente guardar grandes semelhanças com nossa consciência onírica (ou aquelas resultantes de outros estados alterados análogos), fica difícil sustentar a sobrevivência de nossa personalidade ordinária após a morte, pois nos sonhos a função da memória (agimos como ‘perceber’, e não como ‘lembrar’), nosso sentido de identidade, nossas emoções e processos de avaliação atuam de maneiras bastante diferentes de quando estamos despertos.

 

Pois bem, mas vamos agora juntar os fios da meada, abordando o presente problema da dissolução de nosso 'Eu' habitual sob a perspectiva de Frederic Myers.

 

Quando Myers desenvolveu sua teoria da personalidade, ele estava bastante ciente de tudo isso. Na sua ótica, a personalidade ordinária (da mesma forma como os muitos ‘eus’ subliminares, a exemplo dos casos psicopatológicos de múltiplos, de transe ou hipnoticamente induzidos) possui uma existência efêmera e transitória. Ela é apenas uma das combinações possíveis do quase infinito número de arranjos que podem ser formados a partir dos elementos psicológicos oriundos do reservatório de nossa unidade psíquica a qual ele denominou de ‘Eu Subliminar’.

 

Frise-se que, para Myers, o Eu Subliminar não é um segundo ‘eu’ funcionando inconsciente e paralelamente ao nosso ‘eu’ familiar, i.e., a nossa consciência ordinária. O Eu Subliminar representa a individualidade total de um Ser; individualidade essa que pode se expressar de inúmeras formas, e a nossa personalidade ordinária é apenas uma delas. Myers chama os tipos de expressão do Eu Subliminar de “manifestações fenomenais”. Dependendo do nosso estado de consciência, resultante das influências a que estamos submetidos, diferentes manifestações fenomenais podem ocorrer, inclusive aquelas de casos psicopatológicos de personalidades concorrentes, quando mais de uma manifestação acontece simultaneamente.

 

Admitindo, para fim de argumento a validade de S, com a morte, o Eu Subliminar, isto é, nossa individualidade, passa a estar submetida a um novo cenário fenomenológico, com a retirada dos influenciadores habituais (os ambientes natural e social que atualmente nos cercam e, principalmente, a interferência dos nossos corpos físicos). Nessa nova realidade, é bastante presumível que nosso Eu Subliminar, i.e., nossa individualidade total e final, passe a expressar-se de uma forma bastante diferente da atual, logo, assumindo uma nova personalidade; e o que hoje consideramos ‘estado de consciência normal’, provavelmente será encarado, “do outro lado”, como um estado alternativo e até mesmo bizarro.

 

Agora, quando avaliamos o problema da identidade pessoal, vimos que pessoas são marcadas por características frágeis e flutuantes; e que podemos razoavelmente considerar alguém como sendo numericamente o mesmo indivíduo ainda quando vastas modificações de suas características acontecem, porém, desde que ocorram de forma gradual. Do ponto de vista lógico, não existe nada a impedir que, após a morte, nossa personalidade seja modificada gradativamente, adaptando-se de forma paulatina a nova realidade (ao contrário de uma adaptação brusca e inesperada), além de também mantermos preservada a nossa cadeia de memórias e o sentido de identidade.

 

Além disso, sob a perspectiva empírica, existem estados alterados nos quais a capacidade de perceber o corpo e o ambiente imediato é severamente reduzida ou eliminada, porém, ainda assim, o ‘eu’ resultante mantém muitas características e, principalmente, o sentido de identidade e a cadeia de memórias da personalidade ordinária. Podemos mencionar casos de experiência de quase morte. Relatos de EQMs evidenciam, com frequência, alterações na percepção (encontrar uma “Luz”, entrar num túnel ou vazio escuro, experimentar estar fora-do-corpo, etc.) e de sentimento (ex., experimentar paz ou alegria); mas os sentimentos dirigidos a pessoas conhecidas (familiares, amigos, etc.), o sentido de identidade [durante a experiência, a consciência experienciadora reconhece-se como sendo aquele sujeito o qual se encontra (ou acredita se encontrar) no limiar da morte] e a cadeia de memórias ficam preservados, como sugerem o fenômeno da Life review e o reconhecimento de pessoas durante a experiência [para uma revisão geral, veja, por exemplo, Holden, Greyson e Debbie, 2009[38]; e Carter, 2010[39]). Os casos stevensonianos de crianças que alegam recordar vidas passadas, por sua vez, indiciam a persistência da memória, do sentido de identidade e de alguns elementos do caráter entre as vidas atual e prévia, logo, com muito mais razão deveríamos esperar que nossa cadeia de memórias, sentido de identidade e caráter ficassem preservados após o falecimento. O valor de face dos casos mediúnicos também indica que a personalidade post-mortem mantém as lembranças, o sentido de identidade (comunicador transmite as informações do ‘ponto de vista’ da pessoa falecida) e caráter da personalidade pre-mortem.

 

Todos esses exemplos fortalecem a hipótese de inclusividade sustentada por Myers, quando, sob determinadas ocasiões, álteres personalidades podem eclodir, absorvendo elementos da vida psicológica da personalidade comum. Contudo, como o choque da morte implica, sob a perspectiva de S, a continuar termos experiências, porém sem mais as influências do corpo físico e do nosso atual ambiente imediato, é de se acreditar, tal como nas situações traumáticas que eventualmente acontecem em nossa existência terrena, que pessoas reajam heterogeneamente a essa mudança; logo, não deveríamos esperar um padrão de características psicológicas sendo genericamente absorvido pelo ‘eu’ resultante à morte. Por exemplo, tal como nos casos psicopatológicos de múltiplos, uma álter personalidade pode conhecer dos sentimentos, pensamentos e das ações da personalidade principal, porém não tomá-los como ‘seus próprios’ (vide o clássico relato de Morton Prince sobre a Sra. Beauchamp). Aqui não existe a permanência do sentido de identidade. Analogamente, o trauma da morte talvez nos faça enxergar o ‘eu’ atual como um outro indivíduo; ou talvez então mantenhamos o sentido de identidade, mas sofreremos parcialmente de alguma barreira amnésica; ou ainda que nada disso corra, talvez apenas experimentemos uma mudança relativa de caráter, nutrindo novos sentimentos, olhando com indiferença nossa vida terrena, etc.

 

Enfim, ainda que a morte implique na substituição da personalidade ordinária como resposta a uma nova realidade existencial, há evidências as quais, no mínimo, sinalizam que essa modificação, ainda que se torne radical, não ocorra de forma abrupta e inesperada para todas as pessoas.

 

 

2.3. Comentários acerca de S3

 

 

S3: que alguns falecidos tenham interesse, desejo e motivação na comunicação com os vivos.

 

Para o estabelecimento de uma comunicação é necessário que o receptor atenda o chamado do emissor e, especificamente, em nosso cenário, que o falecido atenda à invocação ocorrida em sessões mediúnicas (ou se intrometa, no caso de comunicadores “não convidados”). Nesse processo pode acontecer que algumas pessoas mortas tenham interesse e motivação suficientes para estabelecer contato e outras não e, nesse último caso, não teríamos qualquer evidência de personalidades falecidas “invadindo” nosso mundo.

 

É possível também que sujeitos com grandes razões para estabelecer contato post-mortem não o façam. Por exemplo, poderia ser esperado que alguém bastante interessado numa “vida futura”, recém falecido, com fortes vínculos sentimentais com algumas pessoas vivas e que tenha importantes negócios inacabados, mantivesse, após a morte, o interesse e motivação em estabelecer contato mediúnico[40]. Porém, dentro da perspectiva da teoria da transmissão da consciência, vimos ser bem plausível que o choque da morte provoque mudanças profundas na personalidade. Uma consequência dessa alteração no caráter é que ficaria difícil prever que o “Eu” resultante persistiria interessado em estabelecer comunicação com os vivos. Com enfoque nisso, poderíamos, a grosso modo, esboçar os seguintes cenários hipotéticos a respeito do interesse de falecidos em se comunicarem com os vivos, convindo pontuar que a prevalência de algum deles não faz um caso contra S[41]: 

 

Cenários hipotéticos

Personalidade pre-mortem

Personalidade post-mortem

Interesse na Comunicação

Falecido A

Psicodinâmica favorável à comunicação mediúnica, com interesses sobre o assunto, além de elos sentimentais e negócios inacabados envolvendo as pessoas mais queridas as quais “deixou para trás”.

O “Eu” resultante à morte partilha dos aspectos psicológicos que fundamentam o interesse e a motivação da personalidade pre-mortem.

Sim

Falecido B

Idem

O “Eu” resultante à morte absorve todas as lembranças da vida terrena, conhece o caráter que tinha antes do falecimento, porém tem outra postura emocional, passando a ficar indiferente aos acontecimentos e pessoas na Terra. Por exemplo, passa a aderir a um novo sistema de crenças (ou tem acesso a novas informações) que deflaciona o interesse na comunicação.

Não

Falecido C

Psicodinâmica desfavorável à comunicação mediúnica, sem interesses sobre o assunto, desgosto pela vida, depressivo, sem vínculos sentimentais ou assuntos inacabados. A extinção da consciência seria, para ele, até mesmo um alívio.

O “Eu” resultante à morte partilha dos aspectos psicológicos que fundamentam o desinteresse da personalidade pre-mortem.

Não

Falecido D

Idem

 

O “Eu” resultante à morte absorve todas as lembranças da vida terrena, conhece o caráter que tinha antes do falecimento, porém tem outra postura emocional e, exemplificadamente, promove uma mudança radical e direcionada à Vida, passando a querer propagar para outras pessoas que a morte, longe de ser o fim, é um “Portal” para novas oportunidades e crescimento pessoal.

Sim

 

Um outro importante assunto relacionado à motivação é o seguinte: vejo com bastante desconfiança casos em que o médium quase sempre consegue estabelecer contato com o falecido pretendido pela assistência. O problema a que me refiro aqui não é uma questão de fraude, por essa razão peço ao leitor hipoteticamente considerar que o médium em questão efetivamente adquire informações anomalamente. Serei mais claro.

 

Neste exato momento, dia 05/10, acabei de entrar no site de estatística mundial worldmeters e observei que, apenas neste ano de 2014, já ocorreram mais de 43 milhões de mortes. Imagino então ser esperado que, em torno do médium, pelo menos algumas dezenas de desencarnados devessem orbitar, de modo que muitas comunicações mediúnicas não solicitadas fossem estabelecidas. De fato, na história da pesquisa psíquica existem muitos exemplos de personalidades “não convidadas” as quais aparecem no meio da sessão e, na maior parte do tempo, não é conseguido fazer uma identificação de quem elas teriam sido (para uma revisão de uma série de casos assim, veja Gauld, 1971) [42]. Esse tipo de comunicador inesperado, que “cai” no meio da sessão, tem sido conhecido como comunicadoresdrop-in”. Casos como tais (ex., Runolfur Runolfsson/Runki, 1975[43]), quando conseguem fornecer material suficiente para identificação, fortalecem bastante a hipótese S porque demonstram que a motivação e o interesse na comunicação são mais perfeitamente atribuíveis ao falecido do que ao médium. De fato, o problema da motivação é algo central na discussão das hipótese aqui rivalizadas, porque essa característica psicológica (“de se sentir motivado para”) pode orientar o funcionamento psi em direção ao objeto da motivação, tal como demonstram a evidência anedótica e experimental de psi. Assim, médiuns poderiam se sentir motivados de modo que sua PES ficasse orientada em torno das informações relacionadas ao falecido que os assistentes suplicam mensagens. Dessa forma, processos telepáticos entre vivos e incursões clarividentes com foco em documentos sobre o falecido poderiam acontecer, abastecendo o médium com os dados necessários para a dramatização de um contato post-mortem. Médiuns são pessoas, logo, têm seus desejos e necessidades. Muitos deles assumem crenças religiosas, aderindo a doutrinas que não apenas pressupõem a vida após a morte, mas estimulam a comunicação com os mortos.

 

Para ilustrar melhor esse ponto, considere o seguinte exemplo hipotético. Digamos que uma pessoa, a qual chamaremos de “João”, passe a frequentar reuniões doutrinárias de seu grupo espiritualista, como forma de se confortar diante dos reveses da vida ou para superar a perda de sua falecida e querida mãe. João então acata todo o dogmatismo decorrente e observa que alguns de seus “irmãos de fé” tentam entrar em contato com entes espirituais. Não tarda João também tenta. Mas João possui uma disposição à PES que outras pessoas aparentemente não têm (como qualquer habilidade humana, PES é manifestada heterogeneamente na população, assim como nem todos podem dirigir igual Ayrton Senna ou jogar futebol à la Pelé). Dessa forma, João, assumindo que a comunicação post-mortem é um fenômeno real, possui necessidades e desejos que acabam por orientar sua PES em torno de informações sobre pessoas falecidas. Digamos que João é como o “Pelé do psiquismo”, logo, nos melhores momentos, a PES dele se comporta de maneira estável em níveis bastante elevados de eficiência, quando muitas informações verídicas sobre uma pessoa falecida são obtidas extrassensorialmente, da mesma forma que Pelé fazia “mágica” dentro de campo, desconcertando seus adversários. Mas mesmo Pelé tinha seus dias difíceis, de baixo rendimento, quando nada dava certo. João então também tem seus dias de eclipse, quando um apagão de suas habilidades acontece. Ele não consegue manifestar nada de valor, mas, no lugar de ficar calado, parece sofrer de uma compulsão em dizer algo, talvez para preencher às expectativas dos consulentes que esperam ansiosamente alguma mensagem de um falecido ente querido. Então João diz, mas nada do que é mencionado nesses dias de apagão tem valor.

 

Dentro desse hipotético cenário, o qual não parece ficar distanciado da realidade de muitos médiuns, não existe garantia nenhuma que, naqueles “melhores momentos”, as informações obtidas anomalamente são provenientes da mente de pessoas mortas. De fato, podemos dizer que João tem necessidades não apenas de satisfazer a carência sentimental dos consulentes, mas também desejo de reforçar seus sistema de crença numa “vida futura”. Tudo isso fica ainda mais evidente quando no passado do médium existe um evento traumático, como a perda de alguém muito querido, semelhante ao caso de João. Assim, toda vez que os consulentes saem satisfeitos da sessão, João também se realiza, ficando cada vez mais confiante de que realmente consegue “falar com os mortos”, logo, confiante que sua muito amada e falecida mãezinha continua viva, num reino espiritual de renovação, para onde vão seus amigos e outros parentes também muito amados. Porém, tudo o que João faz (embora não esteja ciente disso) é usar PES para adquirir informações da mente dos vivos (via telepatia) ou de registros físicos (por clarividência). O aspecto dramático de como as informações são passadas, “como se” viessem dos mortos, longe de ser algo irrelevante, reflete a crença, desejo ou a necessidade de João na comunicação com os mortos. Algumas vezes esses fatores psicológicos, reforçados por influências socioculturais, podem se desenvolver subliminarmente, fora do controle da camada de consciência ordinária, dando ensejo a comportamentos automáticos inteligentes e com pretensos propósitos de trazer mensagens espirituais. Em alguns casos, uma personalidade nova pode eclodir, com sua própria cadeia de memórias, pensamentos e caráter, alegando ser um ente espiritual. Agora, todo esse contexto de comunicação post-mortem fornece a motivação exata, dentro da psicodinâmica de João, para manifestar sua PES. Talvez nenhum outro contexto, que não o espiritualista, iria servir de catalisador suficiente para uma PES altamente refinada.

 

Essas linhas acima são muito importantes para analisarmos o aspecto motivacional em CMs, até porque interesses e necessidades, ainda que não conscientes, são atributos psi-condutivos que podem servir para guiar a PES em torno de algum evento ou informação (para mais detalhes veja a seção ao lado, “teorizando psi”, especificamente sobre uma teoria psicológica da psi. Observe sobre o modelo de Rex G. Stanford, PMIR – Psi Mediated Instrumental Response). Agora, deixo claro que não pretendo generalizar o caso hipotético de João para todos os episódios de aparente comunicação com os mortos. Na realidade, quando abordarmos as características da hipótese LAP, veremos que a suposição de personificação inconsciente por parte do médium encontra muitas dificuldades para ser credível.

 

Seja como for, devemos ficar de mente aberta para o fato de que, numa sessão mediúnica, pode acontecer que as necessidades e as motivações do médium forjem a aparência de sobrevivência de um caso, quando na verdade todas as informações anômalas foram adquiridas a partir de fontes mundanas. Daí a importância de comunicadores drop-in, porque eles deslocam a motivação e o interesse para a comunicação em direção à personalidade intrusa, dificultando uma explicação em termos de PES do médium orientada na satisfação de suas necessidades psicológicas. Comunicadores drop-in são muito difíceis de terem sua identidade confirmada, frequentemente aparecem numa única sessão para nunca mais voltar, não havendo muito razão para que a PES do médium esteja orientada em direção a pessoas falecidas desconhecidas de todos, cuja comprovação da identidade dificilmente irá ocorrer e sequer interpeladas a manifestarem-se.

 

Para concluir um ponto lançado linhas atrás, penso que na vida de um médium genuíno, e considerando o gigantesco número de pessoas desencarnadas, uma boa parte dos comunicadores deveria ser do tipo drop-in; logo, desconfie daqueles médiuns os quais sempre manifestam o morto convocado. Pessoas falecidas não estão servindo às forças armadas e nem são eleitores obrigatórios. A interpelação por comunicação não é algo compulsório, inexistindo muito fundamento de o porquê os interpelados deveriam aparecer com maior frequência em relação aos “não convidados”.

 

[Atualização em 02/08/2015: Modifiquei o entendimento. Refletindo melhor sobre o parágrafo acima, existem razoáveis bases para se esperar que o médium manifeste com maior frequência os falecidos esperados pela assistência do que em relação aos comunicadores “não convidados”. Em primeiro lugar, os comunicadores interpelados são o alvo da sessão, então a focalização de atenção e o desejo do médium estão voltados para contatar um certo falecido suplicado pela assistência, e não outro. Essa circunstância realmente pode enviesar o médium a “escutar” um falecido em prejuízo dos demais. Em segundo lugar, ainda que seja algo misterioso como o desencarnado, desprovido de um sistema sensorial ordinário, consegue localizar o médium (ou vice-versa), isso não nos leva a uma perplexidade maior de como um observador remoto ou um percipiente nos testes ganzfeld conseguem acertar o cenário ou a imagem corretos. Enfim, talvez todo o necessário seja um desejo eficaz por parte dos envolvidos, somado a oportunidade de que todos estão presentes no mesmo ambiente, que então a comunicação mediúnica desejada se estabelece].

 

2.4. Comentários acerca de S4

 

 

S4: que algumas pessoas falecidas tenham percepção extrassensorial (PES) para que possam se comunicar com o médium, influenciando-o telepaticamente; ou então manipulando seu sistema motor, via psicocinese (PK), a fim de expressar mais informações, além de exibir as habilidades e maneirismos que tinham em vida. Falecidos também devem usar PES para tomar ciência de acontecimentos que ocorreram após a morte ou mesmo cognoscer, por meios telepáticos, os pensamentos do médium, dos assistentes e de seus entes queridos ainda vivos;

 

Se pelo menos alguns dos comunicadores são realmente mentes desencarnadas, eles devem usar PES sub-repticiamente para tomar conhecimento dos pensamentos do médium, do contrário não conseguiriam responder os questionamentos dos consulentes durante as sessões. Por exemplo, no caso de psicografia relatado por G. N. M. Tyrrell (1939)[44] à Society for Psychical Research (SPR), que de nenhuma maneira difere do padrão, o controle (“irmão D”) da médium apresentou um comunicador drop-in bastante responsivo, observe-se:

 

Comunicador D.: [...] eu quero apresentar um homem que encontrei aqui. Ele não está muito feliz porque, depois de ter feito algumas coisas boas em sua vida, ele fez algo ruim bem no fim dela, ele agora se sente infeliz entre os muitos que, depois de uma vida comum, voltam ao ponto de partida no final. Ele está muito interessado nisto, ele está aqui esperando.

Outra escrita. O medo me levou a fazer uma coisa muito perversa pela qual não posso me perdoar e isso não é aquilo o que o mundo pensou sobre eu ter perdido minha oportunidade.

(Qual é seu nome?) Whiteman. Eu estive aqui há muitos anos atrás.

[...]

(Quando você morreu?) Eu morri há muito tempo. Penso que faz uns 50 anos.

(Nós passamos por seu túmulo a esta tarde em Holywell?) Eu não tenho nenhum túmulo.

(Você morreu na batalha então?) Não tivesse morrido lutando eu seria mais feliz agora.

(Você está infeliz por cinquenta anos?) Não, mas desde que presenciei tantas mortes esplêndidas as quais me lembro.

(Qual o seu nome?) Whiteman, John Whiteman.

(O que você fez?) Não tive sucesso, mas eu teria me salvado às custas de outros. Todos nós objetivamos isso, mas nenhum escapou.

(Escapou do que?) Morte.

(Como você encontrou o D.?) No campo da batalha eu o vi morrer e desde então o vejo ajudar os homens a morrer (nós tentamos confortá-los). Sim, é isso que ele está me dizendo, vir e ajudar, não ficar preso a coisas que aconteceram há 50 anos atrás, mas eu continuo cheio de remorso e mostrei aos outros que eu mesmo não podia instruir.

(Novamente tentamos encorajá-lo) É isso o que ele diz.

(Qual era seu trabalho aqui?) Eu ensinei a Palavra.

(Um clérigo?) Sim.

(Onde era seu trabalho?) O nome foi perdido, isso foi muito tempo atrás.

(Você era casado?) Ai de mim!

(Nós podemos fazer alguma coisa por você?) Eu apenas acabei de começar o que faço. Ajude-me por oração, isso é tudo.

(Diga-nos onde você morreu) (escrito de maneira muito fraca) L O N D R E S.

 

Considerando que o falecido John Whiteman (J.W), por óbvio, não possuía mais um corpo, a única forma de ele tomar ciência das perguntas feitas seria, a princípio, através de uma interação (a) telepática com a médium ou outras pessoas vivas, ou (b) clarividente acerca das perguntas escritas a lápis. E J.W deve ser bem habilidoso em usar sua PES, porque ele manteve uma extraordinária coerência responsiva, como se efetivamente estivesse lendo os questionamentos elaborados.

 

Além disso, falecidos comunicantes devem usar PES para tomar conhecimento de fatos ocorridos após a sua morte. Por exemplo, C. D. Thomas (1933)[45] relata um caso com a médium Sra. Leonard. O comunicador era um garoto que em vida se chamava Willie. Numa das sessões, o controle “Feda” diz:

 

Diga ao pai dele que Willie o acompanhou numa jornada, muito recentemente; um nome "S" é relacionado ao lugar, um nome bem longo. Lá Willie observou alguns animais e esteve muito interessado em cavalos. Seu pai estava conversando sobre operações de corte, como se ele fosse cortar e arrumar numa escala muito grande.

 

Thomas comentou:

 

No início de novembro de 1922, o pai do Willie, acompanhado por um amigo, foi convidado a Stock Yards para ver alguns cavalos; enquanto lá estava, a conversa girou em torno do corte de gelo, que é feito numa grande escala naquela parte do Canadá, milhares de toneladas sendo cortadas e armazenadas para o verão. O pai do menino é um engenheiro (...).

Uma comparação de datas mostra que a visita e a conversa foram há alguns poucos dias antes da sessão em que isso foi mencionado.

 

Falecidos também poderiam tomar o comando do corpo físico do médium da mesma forma que nossas mentes “possuemnossos respectivos corpos. Nesse cenário, o organismo do possuído seria manipulado psicocineticamente (PK), não mais pela ação de sua própria mente, mas por uma mente a ele exterior. Chamaremos isso de a teoria da possessão (Tp), a qual habitualmente tem sido relacionada a uma alternância involuntária da personalidade, quando 'B' (seja um falecido ou um centro de consciência subliminar) retira 'A' do controle, passando a ter o comando executivo do corpo. Contudo, devemos ter em mente que na hipótese de cessão voluntária de controle - como pode ocorrer em alguns momentos da mediunidade de transe - o princípio de regência da possessão é exatamente o mesmo[46].

 

Comparativamente à teoria da influência telepática (TIT), na qual o falecido influencia, “inunda” - por assim dizer - os pensamentos do médium com os seus próprios, TP talvez seja mais adequada para responder pelos casos em que o médium exibe com fidedignidade habilidades e comportamentos associados ao falecido. Na influência telepática, a mente do médium (ou dos controles) deve apreender os pensamentos do comunicador para então repassá-los aos consulentes, numa espécie de “telefone-sem-fio do Além”. Então a mente do médium está sempre envolvida no processo, de modo que as matérias ou habilidades dominadas pelo falecido em vida, mas fora do alcance de proficiência do médium (ou dos controles), com muita dificuldade deveriam ser reproduzidas na sessão.

 

Dessa forma, explicar casos como o do dirigível R101 pela TIT é muito custoso, porque a médium Eileen Garrett não tinha o menor conhecimento técnico sobre o funcionamento - e peças - de aviação. Penso ser razoável esperar que essa ignorância devesse impor alguma barreira de entendimento durante a comunicação com o “espírito” do tenente H. C. Irwin. Pior ainda elucidar, também pela TIT, os episódios em que o médium mostra uma habilidade característica do falecido, mas fora de sua destreza, tal como falar um idioma estrangeiro ou tocar um instrumento. Tudo pode ficar ainda mais complicado quando acrescentamos as ocasiões em que o médium demonstra comportamentos e maneirismos típicos do falecido. Em tais circunstâncias, ao menos em termos de TIT, deveríamos sustentar que o médium mimicamente dramatiza a linguagem corporal, os trejeitos pertencentes ao “espírito” quando em vida.

 

Contudo, se invocarmos TP, todas essas dificuldades desaparecem, porque a mente do médium (ou dos controles) é afastada do processo e o comunicador, assumindo o comando executivo do corpo físico (i.e., o comando da interface biológica de acesso ao nosso mundo), manifesta-se diretamente através dele. Além disso, o comunicador não precisaria usar PES para tomar ciência dos questionamentos dos consulentes dentro das sessões, porque agora ele apreenderia as indagações pelos canais sensoriais do possuído. Porém, ainda assim não deveríamos expectar uma intervenção cristalina do falecido em nosso mundo, porque seria esperado que fatores ambientais e, principalmente, estados físicos do corpo do médium perturbassem a consciência do comunicador durante o processo de possessão.

 

Por outro lado, TP deve explicar uma formidável questão, qual seja, se por possessão desejamos dizer que uma mente manipula psicocineticamente um corpo biológico, que tipo de relação nossas mentes e respectivos corpos têm para que sejam tão intimamente vinculados, de modo que “Eu” manipule veementemente o meu corpo, produzindo movimentos voluntários, mas não tenha essa mesma habilidade psicocinética para manipular outros corpos ou mesmo quaisquer objetos físicos?[47] [Presentemente não consigo imaginar uma solução razoável para isso, porém desenvolvo um pouco mais esse problema na nota de referência abaixo].

 

Além disso, a teoria da influência telepática parece ser mais adequada para justificar o material de "má qualidade" emergido durante as sessões. Ora, se a mente do médium está envolvida no processo, seus pensamentos e desejos, suas memórias, expectativas e fantasias turvam o processo de influência, razão pela qual deve ser esperado que CMs sejam marcados por uma instabilidade qualitativa das informações, variando de uma sequência estupenda de acertos inquestionáveis a uma divagação degenerada e incoerente, oriunda da camada onírica da consciência do médium. 

 

Agora, qualquer que seja o modelo de contato com nosso mundo, por influência ou possessão, por PES ou PK, ou ambos, parece ser inquestionável que os comunicadores devem possuir um funcionamento psi altamente refinado, dada a elevada fluência responsiva de suas influências telepáticas ou esforços psicocinéticos. E com isso chegamos