Refutando Richard Wiseman

 

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Richard Wiseman é professor de Compreensão Pública da Psicologia na University of Hertfordshire, Reino Unido. Ele começou a sua vida profissional como um mágico, antes de se graduar e obter um Ph.D. em psicologia na University College London (UCL) e University of Edinburgh, respectivamente. Wiseman também é partidário do The Committee for Skeptical Inquiry (CSI) e é um dos poucos céticos, assim como Blackmore, que já conduziram pesquisas sobre fenômenos psi. Ele é bem popular, frequentemente aparecendo na mídia para desbancar o paranormal e nulificar os achados de pesquisadores psi. Vamos agora examinar seus principais argumentos e verificar o porquê deles serem de pouca validade. Para tanto, irei utilizar-me das análises de Chris Carter (2007; e “Heads I Lose, Tails You Win”, Or, How Richard Wiseman Nullifies Positive Results, and What to Do about It: A Response to Wiseman’s (2010) Critique of Parapsychology, 2010), Radin (2008) e Sheldrake (2012 e em seu textos on-line, disponíveis aqui), além de comentários pessoais embasados nas seções precedentes deste site.

 

Carter (2010), analisando um artigo de Wiseman apresentado na The Skeptical Inquirer (2010), levantou as principais críticas deste auto-aclamado cético em relação ao fenômeno psi. Vejamos. Wiseman escreve que após mais de 60 anos de experimentação, pesquisadores falharam em alcançar um consenso sobre a existência de psi. “Mas o que ele exatamente quis dizer com ‘pesquisadores’? Ele inclui críticos compromissados e desmistificadores como ele próprio? E além disso...a ciência é a mais pura e efetiva forma de não operar pelo consenso da opinião, mas sim de testar as teorias em face das evidências e de avaliar essas evidências de uma maneira justa e imparcial”, lembra Carter.

 

Wiseman em seguida afirma que a maioria dos experimentos na parapsicologia não alcança resultados significativos. Porém, “de vez em quando um desses estudos produz resultados significativos. Esses estudos frequentemente contêm artefatos metodológicos”. Em primeiro lugar, análises meta-analíticas têm demonstrado a falsidade em se afirmar que resultados significativamente positivos não têm sido encontrados. Muito pelo contrário. Apesar de o tamanho do efeito ser pequeno, o número crescente de experimentos tem proporcionado um desvio estatisticamente significativo cada vez maior em relação a linha do acaso. Meta-análise é uma técnica quantitativa fortemente usada nas ciências social, comportamental e médica, objetivando integrar os resultados de numerosas experiências independentes. Começando por volta de 1985, as meta-análises foram conduzidas em diversos tipos de experiências psi. Em muitas dessas análises, os resultados indicaram que os efeitos não eram devidos ao acaso, a falhas metodológicas, à prática de relatórios seletivos ou a quaisquer outras explicações normais plausíveis. O que permanece é a psi, e em muitas áreas experimentais ela claramente tem sido reproduzida por pesquisadores independentes (Radin, 2007). Além disso, nos dias atuais a pesquisa psi conta com modelos de estudos confirmatórios capazes de, com boa margem de certeza, replicar os efeitos mensurados. No que se refere a existência de artefatos metodológicos, pesquisas apontam que o tamanho do efeito não tem covariado significativamente com o aumento da qualidade do estudo (por ex., vide as análises de Honorton (em ganzfeld), Radin (telepatia em sonhos) Honorton e Ferrari (precognição), Radin e Nelson (psicocinese), relatadas nas parte II deste site).

 

Sobre o (pequeno) tamanho do efeito encontrado nos experimentos psi, vale destacar a observação de Irwin e Watt (2007):

 

Não é impertinente notar que essas críticas em face da parapsicologia podem igualmente ser aplicáveis a outras áreas aceitas da investigação científica. Na psicologia, por exemplo, muitos resultados experimentais compreendem pequenos efeitos, mas estatisticamente significativos, e muitas vezes a replicabilidade desses efeitos é pobre ou não testada. Isso não quer dizer que a repetibilidade e o tamanho do efeito não são importantes, mas apenas que a ênfase dos críticos sobre tais coisas, dentro da parapsicologia, é fundamentalmente para fins retóricos (McClenon, 1984, pp. 89-91). 

 

Em outro ponto, acrescentam:

 

Embora parapsicólogos lamentem esses dispositivos retóricos, é fato que as controvérsias científicas vem sendo travadas desse modo. Como afirma Feyerabend (1975), não é tanto a lógica do processo que determina o resultado de uma controvérsia científica, mas, no lugar dela, as habilidades retóricas dos defensores de cada lado.

 

Wiseman também observa que os achados positivos de parapsicólogos surgem de uma massa de estudos não significativos, sugerindo, portanto, que o caso de reporte seletivo (ou efeito filedrawer) poderia reduzir a significância estatística ao nível do acaso. Felizmente nós podemos estimar o número necessário de estudos negativos e não publicados os quais, quando incluídos na amostra meta-analítica, poderiam reduzir a significância à expectativa do acaso. Sendo assim, nas seções deste site em que cada fenômeno foi analisado do ponto de vista evidencial, tanto no que diz respeito a ESP quanto a PK, observamos que a razão entre estudos negativos e ignorados e estudos publicados é muito grande para o filedrawer ser considerado seriamente. Além disso, como Carter salienta, em 1980 Blackmore realizou uma pesquisa para verificar se parapsicólogos possuíam uma tendência de reportar resultados positivos em ganzfeld, concluindo negativamente.

 

Wiseman ainda sustenta que parapsicólogos justificam qualquer falha de replicação a possíveis modificações no procedimento experimental ou então apelam para o efeito [negativo] do experimentador, e nunca admitem a não existência de psi. Contudo, o insucesso de alguns experimentos não é suficiente para declarar que o efeito não existe. Fenômenos com pequeno a médio efeito necessitam de muitos experimentos para poderem ficar evidenciados, sendo assim, parapsicólogos provavelmente não afirmam a inexistência de psi porque a evidência estatisticamente global é bastante favorável à existência do fenômeno. Além disso, procurar falhas metodológicas é algo normal dentro de qualquer procedimento experimental, seja qual for o ramo da ciência. Ademais, tratando-se da verificação de habilidades humanas, a postura do experimentador realmente pode influenciar psicologicamente os participantes do estudo, de uma forma positiva ou negativa, estimulando ou inibindo o efeito psi mensurado. Isso deveria ser algo que Wiseman não poderia duvidar, porque ele já testemunhou sua ocorrência. Em 1997, Wiseman e Schlitz rodaram estudos idênticos, no mesmo local, usando os mesmos equipamentos, a fim de averiguar se os participantes poderiam detectar se o experimentador estava lhes observando. Como predito, enquanto Wiseman, um cético em psi, atingiu resultados comparáveis ao acaso, Schlitz, uma pessoa favorável ao fenômeno, alcançou resultado significativamente superior ao nível do acaso.

 

Ao contrário de parapsicólogos serem teimosamente relutantes em não admitir a inexistência de psi, Wiseman é quem possui o histórico de distorção de resultados em favor da hipótese nula, para teimosamente não admitir a existência de psi.

 

Um destes casos já abordamos por ocasião da meta-análise dos estudos ganzfeld. Relembremos.

 

Muito céticos objetam que a meta-análise de 1999 (elaborada por Julie Milton e Richard Wiseman), com p = 0.41 e taxa de acerto de 27.5% (sendo 25% o esperado pelo acaso), confirma a hipótese nula, ou seja, excluídas as explicações normais (tais como vazamento sensorial, fraude, viés do experimentador, erros estatísticos, etc.) os experimentos ganzfeld reproduzem probabilidades a nível do acaso, logo, fica desmistificada a existência de ESP. Isto não é verdade. A razão para que a meta-análise de M./W. tenha falhado em confirmar psi é que estes autores utilizaram médias não ponderadas, ignorando o tamanho da amostra de cada estudo analisado. Dean Radin (2006) adverte que se somarmos o total de acertos e de tentativas nos 30 estudos avaliados por M./W. (o método correto de fazer meta-análise) encontraremos resultados estatisticamente significativos a favor de psi, com probabilidades contra o acaso em cerca de 20 para 1.

 

Além disso, a meta-análise de M./W. possui mais dois graves erros. Ela ignorara a existência dos resultados altamente positivos de Kathy Dalton (Exploring the links: Creativity and psi in the ganzfeld, 1997), muito embora tenham sido publicados quase 2 anos antes. Ademais, mistura estudos psi confirmatórios com exploratórios, ao contrário do que tinha ficado acordado no Joint Communiqué entre Honorton e Hyman; assim M./W. juntaram estudos sem a preocupação de avaliar o grau de aderência de cada estudo incluído na amostra com o protocolo ganzfeld (Carter, 2007).  

 

Esse último equívoco de M./W. tem especial relevância, porque além da técnica ganzfeld padrão, a qual utiliza estímulos visuais, existem experimentos com variações de alvos, como usar formatos não-visuais, a exemplo de músicas. A experiência tem mostrado que o ganzfeld-padronizado (o adotado no protocolo) tem rendido muito mais sucesso em evidenciar a psi. Bem, Palmer e Brougton (2001) dividiram dois grupos de estudos, um usando a técnica padrão e o outro grupo usando variações técnicas, a exemplo de alvos melódicos. O exame revelou que as pesquisas padrão revelaram efeitos contra o acaso na ordem de 5 mil contra 1, enquanto os estudos não-padronizados não superaram a expectativa do acaso. [Para saber mais sobre esse ponto, ver ao lado a refutação a Ray Hyman].

 

Um segundo caso de distorção de resultado é relacionado a uma menina russa de 17 anos à época (setembro de 2004), chamada Natasha Demkina e que alegava ser capaz de estabelecer diagnósticos médicos psiquicamente. Natasha dizia conseguir olhar profundamente no interior dos corpos das pessoas e observar se havia alguma coisa de errado. Wiseman alega que em seu teste, transmitido pelo Discovery Channel, a menina falhou. Mas isso não é verdade. À Natasha foi dado um conjunto de 7 cartas, com um problema de saúde indicado em cada uma delas. Pessoas com algum desses sete problemas (incluído um indivíduo perfeitamente saudável) foram identificadas por um número e colocadas em fileira. Natasha tinha que correlacionar cada pessoa a uma das sete cartas. Assim, sob condições bem controladas impostas pelo experimento, Natasha foi capaz de identificar corretamente 4 das 7. A probabilidade de fazer 4 acertos em 7 pela pura sorte é menor do que 1 em 50 tentativas, ou de outra forma, menor do que 2%. Todavia, Wiseman considerou o experimento como fracassado sob um argumento contratual (mas não científico), ou seja, porque Natasha e o representante dela tinham acordado com o protocolo experimental que exigia 5 combinações perfeitas, o teste foi interpretado por Wiseman como puro palpite, não apoiando qualquer crença nas alegadas habilidades da menina. Investigando a alegação de Wiseman, o laureado Nobel em física Brian Josephson concluiu que a taxa de 4 acertos em 7 é considerada, no mínimo, marginalmente significante em muitos estudos de psicologia quando 1 acerto em 7 representaria o resultado ao acaso. Essa foi a mesma interpretação do professor de Estatística Aplicada na University of Greenwich, Keith Rennolls, conforme carta publicada no Times Higher Education Supplement:

 

Eu revi os argumentos do Professor Josephson, publicados em sua página na internet, e achei-os científica e estatisticamente corretos. Em contraste, a declaração do Professor Wiseman, do CSICOP, de que 'eu não vejo como você poderia argumentar que há algo de errado na exigência de acertar 5 em 7 quando ela [Natasha] antecipadamente concorda com o alvo', demonstra uma total falta de compreensão de como os dados experimentais devem ser estatisticamente interpretados. O experimento é inadequado de muitas maneiras. A chance de se observar 4 acertos em 7 por puro palpite é 1 em 78, indicando um resultado significativamente não aleatório, conforme alegado pelo Professor Josephson... O experimento, como projetado, tinha altas chances em falhar para detectar efeitos importantes (apud Carter, 2010).

 

Um terceiro caso da supressão de resultados positivos envolve a sugestiva evidência de telepatia canina. Há cerca de 20 anos atrás, o biólogo Rupert Sheldrake, Ph.D., iniciou uma série de experimentos a respeito da habilidade de alguns cães domésticos saberem quando seus donos estão voltando para casa. A controvérsia surgiu quando as experiências de Sheldrake com o cachorro Jaytee foram publicadas na Inglaterra em 1994. Na época, jornalistas buscaram um cético para as comentar, e Richard Wiseman foi uma óbvia escolha. A causa inicial da discussão foi o fato de Wiseman, apesar de replicar os resultados positivos de Sheldrake, ter alardeado por diversas ocasiões na mídia que havia desbancado o caso do cachorro telepático. Na edição de abril de 2000 do Journal of the Society for Psychical Research, Sheldrake respondeu às críticas de Wiseman, Smith e Milton publicadas no British Journal of Psychology (1998) e na edição de janeiro de 2000 do Journal of the Society for Psychical Research.

 

Sheldrake comenta:

 

Na edição de janeiro do Journal, Richard Wiseman, Matthew Smith & Julie Milton publicaram uma resposta a minha nota (Sheldrake, 1999a) a respeito de suas alegações terem refutado o fenômeno "psíquico em animais". Tais alegações foram feitas no British Journal of Psychology (Wiseman, Smith & Milton, 1998) e extensamente publicadas na mídia. Elas foram repetidas recentemente até 2 de fevereiro deste ano numa apresentação do primeiro autor na Royal Institution, intitulada "Investigando o Paranormal".

 

Em meu convite, Wiseman e Smith executaram 4 experiências gravadas em vídeo com um cachorro chamado Jaytee, com o qual executei mais de 100 experiências gravadas em vídeo (Sheldrake, 1999b). Minhas experiências mostraram que Jaytee normalmente esperava na janela uma proporção de tempo bem maior quando sua dona estava voltando para casa do que quando não estava. Isso acontecia mesmo quando a dona, Pam Smart, voltava fora de rotina, em tempos aleatoriamente selecionados e por veículos não familiares, como táxis. Esse padrão claramente já aparecia meses antes de Wiseman et al. realizarem seus testes.

 

Nas 3 experiências executadas por Wiseman e Smith no apartamento dos pais de Pam, o padrão dos resultados foi bem parecido com os meus. Seus dados mostram um grande efeito estatisticamente significativo: Jaytee ficou uma proporção de tempo bem maior na janela quando Pam estava a caminho de casa do que quando ela não estava (Sheldrake, 1999a). [Nesses 3 testes, Jaytee esteve na janela em média 4% do período principal de ausência de Pam, quando ela não estava voltando para casa, e 78% do tempo durante seu período de retorno, um efeito estatisticamente significativo].

 

A diferença entre nossas interpretações em relação a essas experiências surgiu porque em Wiseman et al. houve uma diferença de agenda. Eu me engajei num estudo a longo prazo sobre estes comportamentos antecipatórios de cachorros, enquanto eles pareciam mais interessados em tentar expor uma "reivindicação paranormal".

 

Eles próprios definiram os ‘sinais’ de Jaytee como uma ‘alegação’ arbitrária, desconsiderando a maior parte de seus próprios dados. Eles argumentam que como especificaram um critério com antecedência (ou vários critérios, eis que os modificaram no decorrer), a convergência entre os nossos padrões de resultado é irrelevante. ‘Testando essa alegação, não foi necessário organizar nossos dados e procurar algum padrão’ (Wiseman, Smith & Milton, 2000, pág. 46). Embora eles tenham recusado olhar para o padrão de seus próprios dados, eu organizei os próprios dados deles, e, junto com os gráficos dos meus dados, emergiu um único e claro padrão. Eu lhes dei os gráficos respectivos antes deles enviarem o artigo para o British Journal of Psychology em 1996. Tanto no artigo quanto nas alegações céticas na mídia, eles preferiram ignorar o que seus próprios dados mostraram.

 

‘Nós fizemos o melhor que poderíamos para captar esta habilidade e não encontramos qualquer evidência para sustentá-la’, Smith, num artigo intitulado: "animais domésticos psíquicos são expostos como um mito" (Irwin, 1998). ‘Muitas pessoas pensam que seus animais de estimação poderiam ter habilidades psíquicas, mas quando colocamos isso a teste, o que aconteceu foi normal, e não paranormal’, afirmou Wiseman numa manchete que acompanhou o artigo deles. Estes são exemplos de comentários que eles agora descrevem como "responsável e preciso".

 

Wiseman, Smith & Milton tentam justificar o fato de terem ignorado o padrão exibido em seus dados dizendo que isso foi um ‘post hoc’. Eu não posso aceitar esse argumento. Primeiro, eu organizei os dados em gráficos desde o início de minha pesquisa com Jaytee. Segundo, a consideração de análise post hoc negaria a validade de qualquer avaliação, independente de quaisquer dados publicados. O propósito inteiro de publicar dados científicos é habilitar outras pessoas a examinarem e analisarem por elas próprias. Necessariamente, a análise crítica dos dados publicados, em qualquer campo de pesquisa, só pode ser post hoc. E terceiro, a organização dos gráficos não é considerada normalmente como um procedimento discutível na ciência. Consequentemente, eu não concordo com eles que minha representação dos seus resultados em meu livro tenha sido ‘enganosa’ (Sheldrake, 1999, Figure 2.5).

 

Numa recente nota, eles levantaram dois pontos científicos, no lugar de legalistas. Primeiro, sugerem que Jaytee simplesmente poderia ter ido cada vez mais à janela quanto mais [tempo] Pam estivesse fora e, consequentemente, ficado mais tempo lá na janela quando sua dona estava a caminho de casa. Mas uma comparação do comportamento de Jaytee durante as ausências curtas, médias e longas de Pam mostra que isso não foi o caso (Sheldrake, 1999b). Além disso, nas experiências de controle, nas quais Pam não voltava para casa, Jaytee não foi progressivamente mais à janela a medida que o tempo passava (Sheldrake, 1999b, Figure B.2).

 

Segundo, eles dizem que minhas experiências ‘parecem conter problemas de projeto (Blackmore, 1999)’. Os comentários de Susan Blackmore foram feitos num artigo no Times Higher Education Supplement, que concluía: ‘existem melhores maneiras de gastar o tempo em preciosas pesquisas do que ir atrás de algo que muitas pessoas desejam que seja verdade, mas quase certamente não é’. Ela pensou ter descoberto ‘problemas de projeto’ em minhas experiências com Jaytee (Sheldrake 1999b), porque "Pam nunca esteve afastada [de casa] por menos de uma hora". (Nos experimentos de Wiseman, Smith & Milton, Pam nunca esteve fora por menos de uma hora.)

 

Isso é por que Blackmore pensou que existia um problema: ‘Sheldrake fez 12 experiências nas quais ele ‘bipava’ Pam em tempos aleatórios para dizer que ela retornasse...Quando Pam saía [de casa], Jaytee acomodava-se e não se preocupava em ir à janela. Quanto mais tempo Pam estivesse fora, mais frequentemente ele ia olhar [a hipótese da ansiedade]. Além disso, a comparação é feita com o primeiro período, quando o cachorro raramente levantava’. Mas qualquer um que olhar para os dados reais (Sheldrake, 1999b, Figure B.4) pode ver, por si próprio, que isso não é verdade. Em 5 das 12 experiências, Jaytee não se acomodou imediatamente quando Pam partiu. De fato, ele foi à janela mais na primeira hora do que durante o resto da ausência de Pam, exatamente na hora de ela retornar a caminho casa, ou quase voltando. Na luz dos comentários de Blackmore, eu tenho reanalisado os dados de todas as 12 experiências, excluindo a primeira hora. O percentual de tempo que Jaytee ficava na janela durante a ausência de Pam foi realmente menor quando a primeira hora foi excluída (3.1%) que quando incluída (3.7%). Por contraste, Jaytee esteve na janela 55.2% do tempo quando ela [Pam] estava a caminho de casa. Levando a objeção de Blackmore em conta, isso fortalece, ao invés de enfraquecer, a evidência para Jaytee saber quando sua dona estava voltando para casa, e aumenta a significância estatística da comparação. (Incluindo os primeiros 60 minutos de ausência do Pam na análise, pela amostra-combinada t teste, t=-5.72, p=0.0001; excluindo os primeiros 60 minutos, t=-5.99, p<0.0001.) A alegação de Blackmore ilustra mais uma vez a necessidade de tratar o que os céticos dizem com ceticismo.

 

Embora Wiseman por muitos anos tenha alegado que seus testes refutaram o 'fenômeno psíquico em animais domésticos', numa entrevista com Alex Tsakiris, aos 17 de abril de 2007, ele finalmente admitiu, “acho que não existe qualquer discussão que o padrão em meus estudos é o mesmo padrão nos estudos de Rupert... Isso é como eles são interpretados” (entrevista na Skeptiko.com).

 

Em Richard Wiseman's claim to have debunked "the psychic pet phenomenon” (disponível aqui), Sheldrake ainda menciona dois interessantes comentários, respectivamente, de Robert McLuhan e Will Storr a respeito do comportamento de Wiseman. Em seu livro Randi's Prize (2010; PP. 187-198), McLuhan extensamente discute a controvérsia sobre Jaytee entre Wiseman e Sheldrake, descrevendo a abordagem científica de Wiseman como 'desastrosa', além de mostrar como seu objetivo era desmascarar as habilidades de Jaytee, e não o de investigar seriamente. Como McLuhan observou: 'se Wiseman tivesse interessado em participar deste campo de estudo ele teria colaborado com o cientista que estabeleceu a base para isso... Mas como um cético profissional, Wiseman viu a chance de interromper [esse campo de estudos] em suas trilhas, e é interessante como ele tem conseguido. Como tantas vezes acontece, um empreendimento mal planejado, desinformado e oportunista gera um resultado que se torna parte da literatura crítica e pode ser referido como se fosse a última palavra (p. 198)’.

 

Em seu livro The Heretics: Adventures with the Enemies of Science (2011), Will Storr descreveu sua própria investigação a respeito das alegações céticas de Wiseman, descobrindo que elas eram seriamente enganosas. Após várias discussões com Wiseman, Storr concluiu, "a carreira de Wiseman como uma celebridade cética baseia-se em não existirem coisas como fenômenos paranormais. Ele admite nunca ter tido 'qualquer interesse em investigar se isso é verdade porque eu sempre pensei que não é' (p. 325)".

 

Por muitos anos Wiseman alega ter desmascarado o fenômeno psíquico em animais domésticos e é frequentemente citado por céticos como assim tendo feito. Ele divulga amplamente sua posição na mídia e tem sido mencionado na imprensa sob manchetes do tipo 'cão psíquico falha em dar aos cientistas uma pista', 'animais domésticos psíquicos são expostos como um mito', 'animais domésticos não têm nenhum sexto sentido, afirmam cientistas', e assim por diante. Conforme este artigo não publicado em seu site demonstra (How much is that doggy in the window? A brief evaluation of the Jaytee experiments, 2011), ele agora estende suas alegações não mais sobre seus resultados e nem mais desbanca os resultados de Sheldrake e de Pam Smart, passando a sustentar a ‘hipótese da ansiedade', a qual já é refutada pelos dados. Suas céticas alegações simplesmente não são suportadas pela evidência, sustenta Sheldrake. No entanto, elas ilustram claramente como a mídia pode ser manipulada pelos céticos para dar uma impressão completamente enganosa, que é então ecoada por outros céticos os quais são todos muito crédulos quando se trata de declarações que parecem confirmar suas crenças.